sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Evangelho Segundo Marcos - Introdução





O "Evangelho de Jesus Cristo"

O Evangelho Segundo Marcos devia ser conhecido como “evangelho de Jesus Cristo” antes de ter sido atribuido o título actual, pois é a primeira frase que encontramos no texto. A tradição atribuiu a autoria deste evangelho a um homem chamado Marcos, cujas únicas referências no Novo Testamento são as seguintes passagens:
Actos 12:12 Depois de assim refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas estavam reunidas e oravam. 
Actos 12:25 Barnabé e Saulo, havendo terminando aquele serviço, voltaram de Jerusalém, levando consigo a João, que tem por sobrenome Marcos. 
Actos 15:37-39 Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. ... E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. 
Colossenses 4:10 Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, o primo de Barnabé (a respeito do qual recebestes instruções; se for ter convosco, recebei-o), 
2 Timóteo 4:11 ...só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério. 
Filemon 1:23-24 Saúda-te Epafras, ..., assim como Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores. 
1 Pedro 5:13 A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, como também meu filho Marcos.

O livro de Actos e algumas Cartas de Paulo mencionam um Marcos (ou João Marcos, em Actos) que era primo de Barnabé. E Barnabé, segundo Actos, parece ter sido o instrutor de Paulo quando este estava no início da sua carreira. Por outro lado, a Primeira Carta de Pedro (de autor desconhecido) sugere um Marcos que seria filho de Pedro.

Não se pode afirmar que todas as passagens que se referem a um Marcos dizem respeito ao mesmo homem nem há nada no texto de Marcos que indique que foi Marcos, o primo de Barnabé ou o filho de Pedro, o seu autor. E, mais importante, não há nenhum texto no Novo Testamento que descreva alguma convivência entre algum Marcos e Jesus. Portanto, como não é possível saber a identidade do verdadeiro autor, vamos designá-lo “Marcos” (sempre entre aspas).

Apesar de Marcos figurar como o segundo evangelho do Novo Testamento, muitos especialistas sugerem que este foi o primeiro destes a ser escrito, porque existem evidências notórias que este livro serviu de fonte para os outros três. Esta conclusão é tirada pelo estudo dos vários textos (exegese) e a derivação de interdependências entre eles. Vejamos: Marcos contém 661 versículos e por comparação dos textos, podemos ver que “Mateus” utilizou informação de 606 (94% do conteúdo) dos versículos de Marcos para construir o seu próprio relato.

Data e local de escrita

Uma pista para a datação de Marcos é a referência que faz à destruição do Templo (Marcos 13:2), que sucedeu em 70 EC, no seguimento da guerra dos judeus contra os romanos (A Grande Revolta Judaica).

Quanto ao local de escrita, como Marcos trata essencialmente da história de um grupo de judeus da Palestina, a inclinação é afirmar que terá sido escrito na Palestina por um judeu local. Mas o texto revela algum desconhecimento do autor sobre a geografia da Palestina e um não muito sólido domínio sobre os costumes judaicos. Por isso, a Palestina e outros locais com grande densidade de populações judaicas ortodoxas, não são uma boa hipótese para o local de escrita ou para o local da audiência pretendida pelo autor.

Uma pista para determinar o local de escrita é que Marcos contém alguns termos latinos transliterados (não traduzidos) para o grego, o que leva a pensar que tenha sido escrito, como dita a tradição, em Roma ou para uma audiência confortável com termos latinos. Por exemplo:
-          modius, uma medida (Marcos 4:21);
-          legio, legião (Marcos 5:9,15);
-          denarius, uma moeda romana (Marcos 6:37);
-          centurio, centurião (Marcos 15:39, 44-45; Mateus e Lucas utilizam ekatontarchês, a tradução para o grego de “chefe de cem” em Mateus 8:5 e Lucas 7:2).

Isto porque o latim, neste tempo, era apenas utilizado por romanos, pois ainda não estava divulgado nas províncias do Império, embora seja possível que algumas palavras latinas já tivessem sido assimiladas pelas outras culturas. A língua franca universal ainda era o grego e, no médio-oriente, a lingua mais popular ainda era o aramaico.

Mais importante é que algumas passagens de Marcos retratam de forma positiva o “regime” imperial romano face ao surgimento do cristianismo. Por exemplo:
-          Jesus convive com cobradores de impostos (Marcos 2:14-16);
-          O narrador descreve uma mulher oriunda da Fenícia como "siro-fenícia" - esta distinção seria importante para romanos pois estes estavam mais familiarizados com os fenícios de Cartago do que com os fenícios da Síria (Marcos 7:24-30);
-          Jesus indica aprovação no pagamento de impostos a Roma (Marcos 12:14-17);
-          Pilatos é apresentado como um homem razoável que faz todos os possíveis para livrar Jesus da execução (Marcos 15:1-15);
-          um centurião crê que Jesus é filho de Deus (Marcos 15:39).

Estes dados não são indicadores do local de escrita da obra, mas servem para caracterizar uma possível audiência romana. Se considerarmos que Marcos foi escrito no rescaldo de uma guerra entre romanos e judeus (que, segundo Flávio Josefo, saldou-se em mais de um milhão de mortos), então bajular os romanos seria um modo seguro de uma seita judaica (provavelmente a seita dos “nazarenos”) singrar.

Reflectindo sobre os motivos da destruição do Templo por parte dos romanos, podemos admitir que estes pretenderam destruir o fanatismo judaico em torno do culto do Templo, que consideravam ser o motor das revoltas. O autor de Marcos quis deixar claro que os crentes em Cristo (que eram, na sua maioria, judeus) não praticavam nenhum culto relacionado com o Templo, apresentando um episódio em que Jesus critica severamente este culto (Marcos 11:15-18).


Estilo e doutrina

O estilo de Marcos, muito longe de ser uma obra literária, parece um texto improvisado, mais apropriado para apresentações dramáticas em público ou para contadores de histórias populares. No entanto, o autor tenta seguir um padrão ordenado.

Um Jesus de poucos poderes

As histórias contadas em Marcos não encaixam muito bem nas doutrinas correntes do cristianismo. Segundo este livro, Jesus era um homem com uma existência irrelevante até ao dia em que foi escolhido por Deus para ser o Messias (gr. Christos) de modo a salvar os que entendem a mensagem sobre o Reino de Deus. Depois de escolhido por Deus, no seu baptismo, Jesus fica com alguns poderes mas não é omnipotente nem omnisciente e, por vezes, falha nas suas acções. Jesus não ressuscita ninguém, pois no único episódio de Marcos que se poderia considerar de ressuscitação, sobre a filha de Jairo (Marcos 5:22-24;35-42), o autor não deixa claro se a menina chegou mesmo a estar morta.

Missão secreta

A missão de Jesus é secreta, pois Jesus não quer que ninguém saiba que ele é o Messias e constantemente adverte para que as suas acções sejam mantidas em segredo. Também Jesus manda calar os demónios que, através dos que estão possessos, mostram saber quem ele é. A missão é tão secreta que Jesus fala em público por meio de parábolas complicadas e só as explica (ou tenta explicar) quando está em privado com o grupo restrito de seguidores.

Pode ser que, ao descrever um Jesus tão discreto, a intenção do autor fosse justificar porque é que ninguém tinha, até então, ouvido falar de Jesus Nazareno. Parece que, durante quase quarenta anos (de 33 a 70 EC), ninguém se lembrou que Jesus Nazareno tinha existido!

A doutrina apresentada mostra que a salvação é apenas para aqueles que conseguem interpretar a mensagem enigmática. No entanto, alguns manuscritos de Marcos apresentam, na conclusão do texto, o ressuscitado Jesus a solicitar aos onze apóstolos “Ide por todo o mundo, e pregai... Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”. Isto redefine quais são os beneficiários da doutrina, que a partir dali passam a ser as pessoas que acreditem (mesmo sem entender...). Esta nova doutrina encontra-se na versão de Marcos que contém a “Conclusão Longa”, uma série de versículos extra que só se encontram em manuscritos posteriores mas que fazem parte da maioria das traduções actuais de Marcos.

Jesus, o curandeiro

Em Marcos, Jesus é retratado com traços muito humanos, e os apóstolos são frequentemente descritos como incrédulos e de pouco entusiasmo. Algumas curas de Jesus são descritas como sendo praticadas por um vulgar curandeiro (à luz do que era conhecido na época). Em próximas publicações abordaremos textos onde estas imagens transparecem e veremos como “Mateus” e “Lucas” censuraram estes textos, alterando ou omitindo partes, e tornaram as descrições mais dignas de um verdadeiro ser celestial.



Resumo do texto

Marcos é um texto que se lê em, aproximadamente, uma a duas horas. Vejamos quais são os temas principais de cada capítulo:

Cap.
Resumo
1
João Baptista ensina; Jesus é baptizado; tentação de Jesus por Satanás; João é aprisionado; Jesus ensina que “o Reino aproxima-se”; recruta Simão, André, Tiago e João; cura homem com “espírito imundo” em Cafarnaum num Sábado (Sabbath); cura a sogra de Simão; viaja pela Galileia e cura um leproso.
2
Paralítico desce pelo telhado da casa de Jesus (em Cafarnaum) e é curado; Levi é recrutado; Jesus é inquirido sobre o jejum; os discípulos apanham espigas num Sábado.
3
Homem com mão atrofiada é curado num Sábado; muitos curados; escolhidos os 12 apóstolos; a família de Jesus tenta detê-lo alegando insanidade; escribas acusam Jesus de expulsar demónios com o poder de Belzebu; Jesus repudia a sua família.
4
Parábolas do semeador, da lamparina, da semente e da semente de mostarda; Jesus acalma o mar.
5
Jesus cura o homem, transferindo “espíritos maus” para dois mil porcos; cura a filha de Jairo; cura uma mulher com uma hemorragia crónica.
6
Jesus ensina na sinagoga da sua terra; os 12 são enviados; Herodes pensa que Jesus é João Baptista ressuscitado; detalhe sobre a decapitação de João; 5000 são alimentados; Jesus anda na água; outra visita a Genesaré.
7
Sobre as tradições; o homem corrompe-se por dentro; Jesus não pode esconder-se; cura a filha da mulher grega (fenícia), após ofensas verbais a esta; cura um surdo utilizando cuspo.
8
4000 são alimentados; os fariseus pedem um sinal; Jesus, como não pode fornecer um sinal, adverte contra os fariseus; cura um cego utilizando cuspo; pergunta aos discípulos “quem as pessoas pensam que eu sou?”; cada um deve ter a sua cruz e seguir Jesus.
9
“Alguns não morrerão até chegar o Reino”; transfiguração; Jesus explica que João Baptista é Elias; cura uma criança com um “espírito mudo”; discipulos disputam quem deve ser o maior; “se uma parte do corpo te ofender é melhor cortar”;
10
Os fariseus perguntam sobre o divórcio; Jesus chama as crianças; um rico pergunta sobre a vida eterna; aquele que dá a Cristo receberá 100 vezes; Jesus profetiza a sua morte; Tiago e João pedem lugares importantes no Reino; cura do cego Bartimeu.
11
Jesus entra em Jerusalém montado num burro; amaldiçoa a figueira; expulsa os comerciantes do templo; ensina como rezar; é interrogado que autoridade tem para as coisas que faz.
12
A parábola dos maus viticultores; Jesus responde sobre os impostos; “de qual marido é a viuva que ressuscita?”; os primeiros mandamentos; Jesus contesta a ideia dos escribas de que o Cristo é descendente de David; adverte contra os escribas; a viúva que ofereceu duas moedinhas.
13
Jesus profetiza a destruição de Jerusalém, do templo e o fim.
14
Uma mulher põe óleo caro na cabeça de Jesus; Judas vai aos sacerdotes para traír Jesus; a última Páscoa com os discípulos; Jesus reza em Getsemane; é detido; um jovem foge nú; Pedro nega Jesus.
15
Interrogatório de Pilatos; Barrabás solto; Jesus é flagelado, escarnecido e executado. Simão de Cirene carrega-lhe a cruz; José de Arimateia pede o corpo de Jesus para ser enterrado.
16
Mulheres encontram o túmulo vazio; [Cristo aparece aos discípulos e dá-lhes a missão de pregar o evangelho, para salvar aqueles que acreditam e que são baptizados. (conclusão longa de Marcos)]


Um comentário:

  1. A fonte q como muitos dizem, é uma das possibilidades, mas não é de fato comprovada como verdadeira. As hipoteses que existem são: 1- Marcos foi o primeiro e os demais usaram como fonte. 2-Macos na verdade foi o ultimo entre os 3 sinópticos, pois foi direcionado mesmo para os Romanos. 3-Cada evangelho foi descrito separadamente ou tendo como fontes entre eles, pois haviam muitos outros alem desses. O grande fato principal foi que as cartas de Paulo vieram antes, e esse ja apresentava Jesus muito mais que so messias, sacerdote ou profeta. Esses evangelhos foram escolhidos no canone justamente pela linguagem diferenciada tentando atingir Romanos (Marcos), Lucas (gregos) e Mateus (judeus). João (A mensagem mais doutrinaria de fato).

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