domingo, 10 de março de 2019

Século II - A Revolta de Bar Kokhba



A Revolta de Bar Kokhba (132-136 EC)

Fontes

Sobre a Revolta de Bar Kokhba, as melhores fontes que temos são: a Mishna, que é um livro de casos jurídicos e não uma história; uma coleção de correspondência pessoal de bar Kokhba, que foi descoberta perto do Mar Morto; e cerca de 600 palavras do historiador romano Cássio Dio, nascido 19 anos após o fim desta guerra.


Contexto

Perto do fim da guerra de Kitos, em 117 EC, o imperador Trajano morreu e foi sucedido pelo seu primo Adriano.

Como Jerusalém permanecia desabitada deste a Primeira Guerra dos Judeus contra os Romanos (66-73 EC), Adriano repatriou à força centenas de milhares de judeus de Chipre e da Cirenaica de volta para a Judeia e aplacou-os prometendo que Jerusalém e o Templo Judaico seriam reconstruídos. 

Mas, com o tempo, a perspectiva de Adriano foi mudando.

Com a guerra de Kitos, as vozes contra o judaísmo tornaram-se cada vez mais numerosas. Já Tácito, que morreu por volta de 120 EC, acreditava que os judeus eram uma ameaça eterna para a civilização greco-romana:

Tácito - Histórias - Livro V

Os judeus consideram profano tudo o que consideramos sagrado; por outro lado, permitem tudo o que abominamos ...

Os outros costumes dos judeus são vis e abomináveis, e devem sua persistência à sua depravação ...

Os judeus são extremamente leais uns aos outros, e sempre prontos para mostrar compaixão, mas para com todas as outras pessoas eles sentem apenas ódio e inimizade ...

Embora, como raça, sejam propensos à luxúria, eles se abstêm de relações sexuais com mulheres estrangeiras; no entanto, entre eles nada é proibido ...

Eles acreditam que as almas daqueles que são mortos em batalha ou pelo carrasco são imortais: daí vem sua paixão por gerar filhos, e seu desprezo pela morte ...


Adriano reconsiderou os seus planos para Jerusalém, e em 132, em vez de a reconstruir para os judeus, a cidade foi reconstruída à sua própria imagem ...


Jerusalém muda para Aelia Capitolina

Adriano muda o nome de Jerusalém, para Aelia Capitolina e a reconstruiu sem muralhas.

Foi renomeado em homenagem ao clã de Adriano Aelius, bem como ao deus Júpiter Capitolino, para quem ele construiu um templo no local do Templo Judeu.

Em frente à sua entrada foi construída uma coluna maciça encimada por uma estátua de bronze dele mesmo. Na entrada do Monte do Templo havia um arco triunfal dedicado a Lúcio Flávio Silva, que conquistou o último reduto judeu em Massada. E sobre a colina do Gólgota, Adriano construiu um templo a Vénus.

Isso foi entendido como uma provocação aos judeus. 


Rabi Akiva ben Joseph

Um certo velho Rabi de nome Akiva ben Joseph começou a anunciar que deveria haver uma guerra de libertação.

Akiva conhecia as comunidades judaicas de todo o Império Romano. Quando as verdadeiras intenções de Adriano em Jerusalém se tornaram claras, Akiva escreveu a essas comunidades proclamando que havia encontrado o Messias: um homem chamado Simon bar Kosiba.


Bar Kokhba

Em homenagem à passagem em Números 24:17 que diz "uma estrela sairá de Jacó", bar Kosiba assumiu o nome de bar Kokhba, "filho da estrela".

Bar Kokhba estudou o fracasso da Primeira Guerra Judaica (66-73 EC) e o sucesso da Revolta dos Macabeus (168-164 AEC).

A estratégia seria alinhar forças judaicas desde Edom até à Galiléia em campanhas de guerrilha. Em resposta, as legiões romanas avançariam profundamente em território hostil para reprimir o que pensariam ser pequenas rebeliões. 

Para permitir a comunicação rápida entre as células rebeldes, o intendente geral de bar Kokhba, Jesus ben Galgula, transformou pelo menos 350 pequenas cavernas em todo o país em esconderijos sofisticados.

As forças de Bar Kokhba incluíam um grande número de samaritanos, que antes haviam ficado de fora dos conflitos judaico-romanos, provavelmente também judeus da Anatólia, e também alguns milhares de estudantes rabínicos leais ao Rabi Akiva.

No entanto, o próprio Akiva não viveria para participar desta guerra, pois foi capturado pelos romanos e torturado.

Em 132 EC, o tio de Bar Kokhba, Eleazar de Modiim, iniciou as hostilidades. Em poucas semanas, todas as forças de Bar Kokhba iniciaram as actividades de guerrilha.

Os romanos tomaram rapidamente Aelia Capitolina. Mas como a cidade não tinha muralhas, os rebeldes facilmente entravam nela para praticarem operações de guerrilha.

Embora Bar Kokhba não tenha mudado sua sede para a antiga capital, ele começou a cunhar moedas celebrando a inevitável reconsagração do Templo.

No final de 133 EC, os romanos conseguiram cortar as linhas de abastecimento de judeus para fora do país, forçando os judeus a recuar para as cidades e se preparar para uma série de cercos.

Entretanto os romanos perderam duas legiões em acções contra a guerrilha judaica, mas no início de 135, os romanos tomaram o Herodium, o mausoléu do rei Herodes, que era a sede operacional de Jesus ben Galgula.

Nesse ponto, o Estado Judeu de bar Kokhba entrou em colapso. Jerusalém foi abandonada, as forças judaicas foram dispersas e o que restou refugiou-se na fortaleza de Betar, alguns quilómetros de Jerusalém.

À medida que as legiões se aproximavam de Betar, bar Kokhba caiu numa depressão paranóica e executou o seu tio Eleazar por traição sem apresentar provas. Por isso, bar Kokhba passou a ser referido como "bar Koziba", "filho da mentira".

Duas legiões vieram tomar Betar, mas o cerco não foi prolongado transformando-se rapidamente num banho de sangue.

Bar Kokhba já teria morrido antes. Não se sabe bem como: um relato diz que ele foi executado pelos seus pares como falso messias; outro relato diz que bar Kokhba foi picado por uma cobra venenosa, que seu corpo foi encontrado após a batalha e que sua cabeça foi removida e entregue ao imperador Adriano.

Adriano proibiu o enterro dos mortos de Betar, deixando os corpos a definhar e a decompor.

As consequências da Revolta de Bar Kokhba foram, em última análise, muito mais destrutivas e devastadoras para a história judaica do que até mesmo a queda de Jerusalém umas décadas antes.


Judeia passa a chamar-se Palestina e o Judaísmo interdito

Com a Judeia novamente despovoada, Adriano mudou-lhe o nome: a Judeia se tornou a Palestina e fundida com a Síria para formar a Síria Palestina.

A fúria de Adriano contra os judeus não parou por aí. A única solução que ele viu para o problema judaico foi erradicar o próprio Judaísmo. 

O Grande Sinédrio foi dissolvido e alguns dos seus membros foram executados com tortura. Qualquer pessoa de ascendência judia foi proibida de colocar os pés em Aelia Capitolina. A circuncisão foi proibida. A celebração dos feriados judaicos tornou-se um crime. 

Matar a tradição judaica, ao que parecia, seria o legado de Adriano.

E então, apenas dois anos depois, ele morreu.

O sucessor de Adriano, Antoninus Pius, revogou imediatamente a maioria das leis aprovadas por Adriano, incluindo quase todos os éditos de Adriano contra os judeus.

Embora Antoninus Pius seja um raro imperador romano admirado pelos judeus, sua reversão das políticas de Adriano não foi total: Jerusalém permaneceu Aelia Capitolina; o templo de Júpiter continuou no topo do Monte do Templo e Antonino juntou uma estátua sua à estátua de Adriano.



Referências

 - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Histories/5A*.html

 - https://www.livius.org/sources/content/cassius-dio/cassius-dio-on-bar-kochba/


domingo, 3 de março de 2019

Século II - A Guerra de Kitos




A Guerra de Kitos (115 - 117 EC)

Na Primeira Guerra dos Judeus contra os Romanos, que terminou em 73 EC, o Templo foi destruído, Jerusalém ficou em ruínas, o Grande Sinédrio (senado judaico) perdeu toda a sua autoridade, e dezenas de milhares de prisioneiros judeus foram vendidos como escravos.

O anti-semitismo estava a subir em todo o Império Romano.

Como se não bastasse a ação humana para dificultar a vida aos judeus, em 79 EC Pompeia foi destruída numa erupção vulcânica, levando consigo uma grande, próspera e livre comunidade judaica.


Os Judeus na Diáspora

No entanto ainda havia alguns lugares onde os judeus prosperavam - grandes comunidades judaicas em Alexandria (Egipto), no Chipre, na Cirenaica (atual Líbia) e também na Mesopotâmia (Babilónia). 

Nesta altura a Mesopotâmia pertencia ao império Parto. O império Parto continuou as boas práticas iniciadas durante o império Aqueménida dos persas no que toca ao respeito pela diversidade e autonomia dos povos. Lembremo-nos que os judeus adoravam os persas que muito influenciaram o judaísmo.

Na verdade, os judeus gozavam de tanta autonomia que chegou a haver uma cidade-estado judaica mesmo ao lado da capital do império Parto, governada durante 15 anos por dois irmãos judeus, Anilai e Asinai (18 a 33 EC).


Roma vs Pártia

Roma e Pártia tiveram constantes guerras desde a época de Júlio César (50 AEC) e nenhum dos dois lados jamais foi capaz de obter uma vitória completa. 

A pouco e pouco tornou-se uma guerra fria entre as duas super-potências em que deixou de haver conflito armado mas, no entanto, uma tensão permanente.

Em 110 EC, o rei da Armênia morreu e os partos instalaram seu substituto sem consultar os romanos. A disputa diplomática que se seguiu durou quatro anos até que o imperador romano Trajano decidiu resolver o problema sozinho invadindo a Armênia e depois a Mesopotâmia.

Para tomar a Mesopotâmia, Trajano precisou de dez legiões, ou cerca de 50.000 homens. Era um terço do exército romano naquela época, e a maioria das legiões do Oriente. Mesmo assim os romanos falharam nos objectivos militares -  os partos, com militares judeus da Mesopotâmia, começaram a atacar os romanos por trás e cercaram-nos.

As dez legiões romanas ficaram presas atrás das linhas inimigas no que hoje é o Kuwait, e Trajano não conseguia reforços - o Império Oriental estava severamente mal defendido. 

Enfim, espalhou-se a notícia de um movimento de resistência judaica que fez frente aos romanos - era um sinal de vingança pela humilhação em Jerusalém.


A Guerra de Kitos

A notícia de que os judeus estavam a dar pancada nos romanos chegou até à Cirenaica (actual Líbia). Em 115 EC, um judeu da elite aristocrática, chamado Andreas Lukuas, aproveitando a quase ausência de forças militares romanas, iniciou uma campanha brutal para tomar a província da Cirenaica. O exército de Andreas matou tantos civis que toda a província teve que ser repovoada após a guerra.

O mesmo aconteceu no Chipre, onde um rebelde judeu chamado Artemion quase exterminou a população não judaica da ilha.

Entretanto Trajano conseguiu romper o cerco na Mesopotâmia e comissionou o general Lusius Quietus, conhecido em grego como Kitos, para conter as rebeliões judaicas na Cirenaica e no Chipre. Esta guerra ficou conhecida pelo nome deste general.

O exército de Andreas teve tanta eficácia na Cirenaica que agora já ameaçava tomar o Egipto, que era a província mais rica e estrategicamente valiosa do Império.

Por volta de 117 EC, Andreas já havia capturado algum território do Egipto. Mas uma nova legião romana chegou sob a liderança de Marcius Turbo, que levou a campanha judaica a um impasse. Andreas fugiu para a Judéia, onde foi apanhado por Quietus em Lydda.

Entretanto, Trajano faleceu e foi substituído pelo seu primo Adriano.

A Guerra de Kitos foi um banho de sangue sem sentido. Foram dois anos de puro terrorismo judaico com genocídio de populações não judaicas.

Adriano proibiu os judeus de porem os pés em Chipre ou na Cirenaica sob pena de morte.

Paradoxalmente exilou toda a população judaica da Cirenaica e de Chipre para a ... Judeia que estava ainda despovoada por causa da Primeira Guerra Judaico-Romana.


Referências:

  - http://www.gutenberg.org/files/10890/10890-h/10890-h.htm#a68_32

  - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/68*.html

  - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/69*.html


Ver também: