sábado, 30 de março de 2013

Paulo - A Eucaristia (aos Coríntios)





Paulo disse aos coríntios que foi o próprio “Senhor” (aqui não se percebe se Paulo referia-se a Deus ou ao Filho) que lhe ensinou sobre a eucaristia. Portanto, nenhum homem ensinou-lhe este ritual tão característico dos cristãos.

1 Coríntios 11:23-25 Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.

É intrigante que Paulo tenha dito isso, quando nas suas cartas também menciona que teve algum convívio com Cefas (tradicionalmente identificado como sendo Pedro), Tiago e João. Segundo os evangelhos estes três homens estiveram com Jesus na última ceia e participaram na eucaristia, ministrada pelo próprio Jesus. Então porque é que Paulo diz que foi “o Senhor” que lhe contou? Os apóstolos não lhe podiam ter contado?

Ao longo das cartas de Paulo, percebe-se o clima de competição entre Paulo e os apóstolos de Jerusalém, por isso, estes poderiam dizer: “ok, o Senhor contou-lhe, mas nós estivemos lá e ele não!”. Mas será que os apóstolos estiveram mesmo com Jesus, participando numa eucaristia?

Esta carta, dirigida à comunidades de crentes de Corinto, foi escrita antes dos evangelhos. Então, de onde foi Paulo buscar este ritual de comunhão?

O mitraísmo, originário dos persas, tornou-se um culto muito popular para os romanos nesta época. Em tempos, teve rituais que incluíam o sacrifício de um touro fazendo uso da carne e do sangue, mas posteriormente outros rituais eram acompanhados da seguinte frase ou dizer litúrgico: “quem não comer da minha carne e beber do meu sangue de modo a tornar-se parte de mim e eu parte dele, não terá salvação”. 

Ora havia um grande centro de culto do mitraísmo em Tarso (da Cilícia, actual Turquia), a cidade originária de Paulo, o que leva a crer que Paulo é que instituiu a eucaristia e não Jesus. Mas a reverência que os judeus tinham pelo sangue (Levítico 3:17; 7:26; Deuteronómio 12:16, 23) não permitia o seu consumo, como ditaria a liturgia, por isso o passo natural seria adoptar ingredientes substitutos, o pão e o vinho, mas mantendo a simbologia. A utilização de pão e vinho teria a vantagem adicional de ser menos dispendioso e mais discreto do que a utilização de um animal sacrificado.

Tendo em conta que esta Carta aos Coríntios foi escrita por volta de 50 EC, imaginemos os cenários alternativos:

-          Jesus instituiu a eucaristia na noite da última ceia, por volta de 30 EC – então os apóstolos tiveram cerca de vinte anos para ensinar e propagar o ritual da eucaristia antes de Paulo escrever esta carta, e não faria sentido Paulo dizer que foi Cristo que lhe transmitiu numa visão;

-          Jesus não instituiu a eucaristia, Paulo é que instituiu – quando chegou a altura da escrita dos evangelhos, em 70 EC, a eucaristia já era um facto entre os cristãos, por isso foi incorporada no relato dos evangelhos como um episódio da vida de Jesus e dos apóstolos;

-          nem Jesus nem Paulo instituiram a eucaristia – este ritual já era praticado antes pelos adeptos do mitraísmo, uma religião popular entre os romanos, e Paulo apenas a integrou no cristianismo.



O mais provável é que os evangelhos estejam errados e que Paulo quis introduzir e legitimar no cristianismo um ritual pertencente a outra crença, facilitando a conversão de fieis.

Outra subtileza habitualmente introduzida nas traduções desta passagem de 1ª Coríntios encontra-se na frase “... o Senhor Jesus, na noite em que foi traído...”. Em questão está a palavra “traído” quando a tradução mais adequada seria “entregue”. Com o claro objectivo de harmonizar as cartas de Paulo com o evangelhos, insinuando que Paulo sabia que Jesus foi entregue por um traidor, dá-se credibilidade histórica ao episódio da traição de Judas.


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