Paulo e a escapada no cesto
Um interessante episódio de Paulo é sobre uma fuga da cidade de Damasco. Paulo teve de escapar a uma ameaça de morte. O episódio foi narrado pelo próprio Paulo na 2ª Carta aos Coríntios e, posteriormente, em Actos.
2 Coríntios
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Actos
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2 Coríntios 11:32-33 Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pôs guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem, e fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos.
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Actos 9:23-25 Decorridos muitos dias, os judeus
deliberaram entre si matá-lo. Mas as suas ciladas vieram ao conhecimento de
Saulo. E como eles guardavam as portas de dia e de noite para tirar-lhe a
vida, os discípulos, tomando-o de noite, desceram-no pelo muro, dentro de um
cesto.
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Ambas as passagens relatam uma fuga de Paulo, o qual desce um
muro por meio de um cesto. A diferença entre estas reside, não na descrição da
fuga, mas no motivo:
-
segundo o próprio Paulo, ele fugiu do governador de
Damasco que o queria prender;
- segundo o autor de Actos, Paulo fugiu de uns judeus que o queriam matar;
Será que as descrições são complementares? Isto é, será que
o governador de Damasco, instigou os judeus a matarem Paulo? Não se pode saber.
Mesmo argumentando-se que ambas descrições são complementares e não
contraditórias, não se pode deixar de notar uma falta de rigor nos relatos.
Mas, considerando que são contraditórias, e que a versão de Paulo é a
verdadeira e que a de Actos é falsa,
então estamos perante mais uma passagem de teor anti-semita (ou anti-judaica) para
juntar àquelas que já encontrámos noutros locais.
Por outro lado, esta passagem poderia fornecer um importante
enquadramento histórico para Paulo se pudéssemos confiar em Actos como fonte histórica. Este rei Aretas mencionado seria, provavelmente,
Aretas IV Filopatris, rei da Nabateia entre 9 AEC e 40 EC. Isto significa que
este episódio teria decorrido antes de 40 EC.
Para além de Actos ser pouco confiável em termos de relato histórico, um entrave para este episódio ser considerado para um
enquadramento histórico é que não se sabe se Aretas IV detinha, na época, poder
sobre Damasco, uma vez que a Síria estaria sob controle directo de Roma. No
entanto, se o imperador romano em exercício, nesta época, era Calígula (37 a 41 EC), para o qual muito pouca documentação existe, podemos imaginar que entre a
morte de Tibério e a instalação do seu sucessor pode ter havido,
temporariamente, modificações políticas nas províncias do Império.
Paulo, fariseu até ao fim
De acordo com Actos,
Paulo declarou-se como fariseu muitos anos depois da sua conversão a Cristo:
Actos 23:6 Sabendo Paulo que uma parte era de saduceus e outra de fariseus, clamou no sinédrio: Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; é por causa da esperança da ressurreição dos mortos que estou sendo julgado.
Obviamente, o autor desta passagem em Actos, desconhecia o Evangelho
Segundo Mateus, onde Jesus coloca-se incondicionalmente contra os fariseus.
Só no capítulo 23 de Mateus, Jesus chega
a repetir a frase “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” seis vezes!
Paulo não sabia que Jesus desprezava os fariseus?
A escolta para Cesaréia
O livro de Actos
menciona uma desproporcionada escolta que foi convocada pelo comandante militar
Cláudio Lísias para acompanhar Paulo de Jerusalém até Cesaréia para ser
recebido pelo governador Félix:
Actos 23:23 Chamando dois centuriões, disse: Aprontai para a terceira hora da noite duzentos soldados de infantaria, setenta de cavalaria e duzentos lanceiros para irem até Cesaréia;
Esta escolta de Paulo era, portando, composta por 470
homens:
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200 soldados de infantaria;
-
70 cavaleiros;
-
200
lanceiros.
Uma escolta de tal dimensão para, alegadamente, proteger
Paulo de quarenta homens que esperavam uma oportunidade para o eliminar (Actos
23:21) é mais um absurdo entre os muitos de Actos.
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