quarta-feira, 13 de março de 2013

Paulo - Sobre a Mãe e os Irmãos de Cristo




Cristo tinha uma mãe ? (aos Gálatas)

Uma das passagens das cartas de Paulo que é invocada para advogar que Paulo pressupunha um Jesus histórico é a seguinte:
Gálatas 4:4 mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei

Paulo diz que o Filho de Deus nasceu de mulher. Mas ele referia-se literalmente a uma mulher? Neste caso ele teria de se referir a Maria, a mãe de Jesus segundo os evangelhos.

Mas vejamos a continuação do raciocínio de Paulo:
Gálatas 4:21-31 Dizei-me, os que quereis estar debaixo da lei, não ouvis vós a lei? Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são dois pactos; um do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é nossa mãe. ... Ora vós, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaque. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre.

Paulo diz que Abraão teve dois filhos que, segundo o Antigo Testamento, foram Ismael, da escrava Agar, e Isaque, da sua legítima mulher Sara. Depois compara os crentes a Isaque. A alegoria seria: Abraão era como Deus que sacrificou o seu filho (embora no caso de Abraão, o sacrifício do seu filho não se consumou) e Isaque era como o Cristo. A ideia geral era que os crentes eram assemelhados ao Cristo. O objectivo do crente era chegar ao nível do Cristo - ser também filho de Deus.


De modo nenhum Paulo referia-se à virgem Maria quando iniciou este exercício alegórico dizendo que Cristo “fora nascido de mulher, nascido debaixo de lei”. Ele estava a produzir um ensinamento que consistia em que o Cristo libertaria aqueles que estavam debaixo da lei judaica. Na sua Carta aos Romanos, Paulo utiliza uma imagem semelhante ao comparar um judeu convertido em cristão, que “morre para a Lei (judaica)”, com uma mulher depois do seu marido morrer.
Romanos 7:1-6 Ou ignorais, irmãos (pois falo aos que conhecem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que ele vive? Porque a mulher casada está ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver; mas, se ele morrer, ela está livre da lei do marido. De sorte que, enquanto viver o marido, será chamado adúltera, se for de outro homem; mas, se ele morrer, ela está livre da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido. Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos quanto à lei mediante o corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, àquele que ressurgiu dentre os mortos a fim de que demos fruto para Deus. Pois, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, suscitadas pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora fomos libertos da lei, havendo morrido para aquilo em que estávamos retidos, para servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Só que aqui Paulo não foi muito claro na sua alegoria, porque confunde de tal maneira os seus leitores que não se consegue distinguir se o cristão corresponde à mulher, que ao ficar viúva fica liberta da Lei, ou se corresponde ao marido por ter morrido para a Lei (a mulher). Ou então foi algum escriba que se atrapalhou a copiar...


Os irmãos de Cristo segundo Paulo

O Evangelho Segundo Marcos discrimina por nome os irmãos de Jesus, como se fossem filhos de Maria e de um presumível pai humano:
Marcos 6:3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? e não estão aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se dele.

Mas para Paulo, os irmãos de Cristo eram todos os crentes. Os crentes eram simbolicamente irmãos de Cristo.

O que Paulo escreveu
O significado provável para Paulo
Romanos 8:12-17 ...   Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus; e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; ...

Os crentes são filhos adoptivos de Deus que têm direito à mesma herança do Pai.
Romanos 8:28-30 ... Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; ...

Cristo é Filho de Deus e os crentes também se tornam filhos de Deus, irmãos de Cristo.
Gálatas 1:19 Mas não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor.

Paulo parece distinguir Tiago com um título especial de Irmão.

1 Coríntios 9:5 Não temos nós direito de levar conosco esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?

Paulo parece mencionar dois grupos de homens: Apóstolos e Irmãos do Senhor. Cefas pertenceria a algum desses grupos?

1 Coríntios 15:3-8 ...  que [Cristo] foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos;

Paulo menciona Cefas, “os doze”, quinhentos irmãos, Tiago e, por fim, os apóstolos. Porque esta ordenação?



Resumindo, para Paulo:

-          a mãe de Cristo é a lei judaica (as escrituras) - não se chama Maria nem é uma virgem - é uma alegoria.

-          os irmãos de Cristo são todos os crentes - não são os que aparecem em Marcos 6:3



Uma vez mais, verifica-se a ausência de Jesus Nazareno na escrita de Paulo.

2 comentários:

  1. Pelo que aqui se lê, parece claro que Paulo conhecia a narrativa dos evangelhos, mas introduz uma mudança na sua leitura, em que essa narrativa se torna numa alegoria de algo mais importante: a essência espiritual de Jesus que é filho de Deus, como todos os seus seguidores, logo seus irmãos. Enfim, seria um corte claro com a história judaica de Jesus para fazer aparecer o Cristo. Maria também é secundarizada, tornada elemento do material significante e não do significado. Apontaria para essa mesma história judaica (a lei mosaica) que urgia ultrapassar para criar uma igreja à dimensão do império e não limitada àquela província.

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  2. Vixe! que gostosa mãe de dels!

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