domingo, 3 de novembro de 2013

Século II - Marcion de Sínope



Marcion de Sínope

Marcion, originário de Sínope (actual Turquia, costa do Mar Negro, antiga região do Pontus), foi viver para Roma por volta do ano 140 EC, onde veio a obter grande sucesso, reunindo um enorme conjunto de seguidores. Era um homem muito abastado, pois terá oferecido 200.000 sestércios à comunidade cristã de Roma.

Ao ler as escrituras judaicas, Marcion chegou à conclusão que os ensinamentos de Jesus Cristo eram incompatíveis com o deus Yahveh do Antigo Testamento. Na sua teologia propunha dois deuses distintos:
- Yahveh, que seria o demiurgo (criador semi-poderoso) do mundo físico imperfeito e 
- o Deus Pai, que enviou Cristo para que os fiéis pudessem se libertar do demiurgo.

Considerou Yahveh como um demiurgo maligno, por isso rejeitou completamente o Antigo Testamento.
Defendia, também, que Cristo tinha Paulo como principal apóstolo. Propôs um canon baseado numa versão própria de um evangelho (baseado no Evangelho de Lucas) e também dez cartas de Paulo (das quais removeu todas as referências ao Antigo Testamento).


Adepto de Paulo

Segundo Marcion, Paulo era o único apóstolo legítimo. Indivíduos como Pedro, Tiago e João, não tinham uma verdadeira compreensão de Jesus ou do Deus Supremo. Esta posição é interessante, porque, segundo os Evangelhos, Paulo nunca esteve com Jesus da Nazaré, enquanto Pedro, Tiago e João estiveram.

Marcion era um devoto seguidor da doutrina registada nas cartas de Paulo. Em muitas passagens Paulo fala de um Deus de puro amor (Romanos 5:8). Noutras passagens, parece evidente que Paulo não gosta da lei judaica, a Torah, considerando-a uma prisão (Gálatas 3:23).

Agora imaginemos um adepto de Paulo lendo a Bíblia Hebraica (o Antigo Testamento), onde se encontra a lei (Torah). Quando Marcion leu a Bíblia hebraica, o deus descrito nesses livros, Yahveh, pareceu-lhe muito diferente do Deus que Paulo descreve e concluiu que deveria ser um outro deus. Yahveh era um deus que forçava leis pesadas e julgava, muitas vezes sem misericórdia, a humanidade por essas leis.

Marcion também afirmou que o deus da Bíblia hebraica era um deus inferior, um deus que, às vezes, parecia não ter conhecimento de certas coisas que deveriam ser fáceis para um ser poderoso (por exemplo, em Gênesis 3:9, Yahveh não sabe onde Adão está, porque Adão escondeu-se).

Marcion constatatou que o mundo físico também tinha muitas falhas, pois continha sofrimento para muitos seres humanos. Esse mundo não podia ter sido criado pelo Deus Pai, o deus de amor que Paulo tanto fala nas suas cartas. Portanto Yahveh, o deus inferior, era o Criador do mundo que aprisionou as pobres almas humanas. O Deus Pai enviou o seu filho Cristo para libertar os homens dos grilhões de Yahveh.

O Deus Pai era um Deus até então desconhecido, revelado por Jesus, o filho de Deus, a Paulo.

Marcion rejeitou completamente o Antigo Testamento. Um problema que Marcion teve de ultrapassar é que Paulo, nas suas cartas, citava constantemente porções da Bíblia Hebraica, alegando serem fonte de revelação sobre o Cristo. Por isso, Marcion criou uma versão das cartas de Paulo em que estas citações foram removidas.


Evangelho Marcionita

Marcion, gnóstico e docético acima de tudo, defendia um Cristo que revelava-se como uma ilusão, com natureza puramente espiritual, incorpórea - Jesus não era humano, apenas tinha aparência humana.

Produziu um evangelho, semelhante ao de Lucas, com a preocupação de que fosse de acordo com a sua teologia. A narrativa do nascimento de Jesus foi suprimida. No seu evangelho, Jesus surge repentinamente nos vários cenários.

Ireneu de Lyon escreveu assim sobre Marcion em Contra Heresias (por volta de 180 EC):
"Além de tudo isso, Marcion mutilou o Evangelho segundo Lucas, descartando tudo o que está escrito sobre o nascimento do Senhor e descartando todos os discursos do Senhor contendo ensinamentos em que está claramente escrito que o Senhor confessou seu pai como o criador de o universo"

O evangelho adaptado por Marcion começaria assim:
No décimo quinto ano de Tibério César, Jesus desceu [do céu] para Cafarnaum, uma cidade na Galiléia, e ensinou [na sinagoga] no Sabbath; E ficaram maravilhados com a doutrina dele, ...

A teologia católica acabou por rejeitar os ensinamentos de Marcion e todas as suas obras escritas foram banidas e só se consegue recuperar alguma coisa a partir de outros autores que censuraram a obra deste como, por exemplo, Ireneu de Lyon, Tertuliano e Epifânio de Salamis.


Tertuliano - "Contra Marcion"

Tertuliano (que viveu 160 a 220 EC), combateu o marcionismo. Em Contra Marcion, critica a abordagem docética de Marcion na qual Jesus descia do céu para ser visto na Galileia, contrária à narrativa dos evangelhos que dizem que Jesus cresceu e viveu na Galileia.

Tertuliano, Contra Marcion, Livro IV, capítulo 7
"No décimo quinto ano do reinado de Tibério" - esta é a proposição de Marcião - "ele desceu à cidade de Cafarnaum na Galiléia" -  claro que significando que desceu do céu do Criador [Yahvéh]. Ao que ele já havia descido de seu próprio céu [do Deus Pai].
Como tinha sido então o seu itinerário, para ele ser descrito como primeiro descendo de seu próprio céu e depois do céu do Criador? Pois, por que hei-de eu evitar censurar estas partes da frase uma vez que não satisfazem a exigência de uma narrativa, mas sempre acabam numa mentira ?
...
Agora, porém, quero também saber o resto da sua viagem para baixo, assumindo que ele desceu. Pois não deve ser muito agradável perguntar se é suposto ele ter sido visto em qualquer lugar. ... (Apareceu repentinamente ou foi visto durante a sua descida?)
É, pois, muito mau Romulus ter tido em Proculus uma testemunha de sua ascensão ao céu , quando o Cristo não poderia encontrar qualquer um para anunciar sua descida do céu;  justo como se a subida de um e da descida do outro, não foram efectuadas em uma e a mesma escada de falsidade ! 

Tertuliano critica as aparições de Jesus na teologia de Marcion, porque nesta não é explicado como é que se sabe que Jesus desceu dos céus para ser visto, uma vez que ninguém observou Jesus a descer dos céus. Compara, depois, com a história de Rómulus, o primeiro rei de Roma, que, segundo a história contada por Tito Lívio e Plutarco, foi visto a subir e a descer dos céus por um homem chamado Próculo.

2 comentários:

  1. Evangelho Verdadeiro15 de junho de 2014 21:25

    Marcion era cristão? Se não acreditava no Deus Criador e Pai então não era um verdadeiro cristão!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Marcion acreditava que existia
      - uma divindade suprema (o Deus Pai do Novo Testamento) que apenas existia no mundo espiritual
      - e um deus inferior (um demiurgo chamado Yahveh, Jeová, o Deus do Antigo Testamento) que tinha maliciosamente criado o mundo físico corruptível.

      Como ele professava a adoração de Cristo como sendo filho do Deus Pai, ele poderia ser, tecnicamente, considerado cristão.

      Saudações

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...