sábado, 14 de setembro de 2013

Outras Cartas Pseudo - Pedro, Tiago e Judas




Cartas atribuídas a Pedro

As duas Cartas de Pedro têm tradicionalmente a sua autoria atribuída ao apóstolo Pedro dos evangelhos. No entanto, podemos encontrar pontos contra esta tradição.

O autor das Cartas de Pedro mostra um excelente domínio da língua grega escrita mas, segundo a opinião veiculada pelo livro de Actos dos Apóstolos, Pedro era “iletrado”:
Actos 4:13 Então eles, vendo a intrepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram homens iletrados e indoutos, se admiravam; e reconheciam que haviam estado com Jesus.

A Segunda Carta de Pedro mostra os seguintes pontos específicos:
-          em 2 Pedro 2:4, o autor utiliza a palavra “Tártaro” para designar as profundezas para onde foram lançados os “anjos pecadores”; no entanto esta designação é do domínio da mitologia grega, não sendo nada provável um pescador iletrado da Galiléia dominar este tema;
-          em 2 Pedro 3:4, o autor mostra-se preocupado com aqueles que escarnecem com o comentário “Onde está a sua vinda prometida?”, referindo-se à vinda de Jesus que tardava; mas, segundo os evangelhos, Jesus já tinha vindo e até tinha estado com Pedro e com muitos outros na Terra;
-          em 2 Pedro 3:15-16, o autor menciona as cartas de Paulo como se estas formassem já um cânon de escrituras cristãs, o que só se pode admitir num estágio de grande maturidade do cristianismo, e que indica que esta carta foi escrita não antes de 80-90 EC.


Mas a passagem mais curiosa de 2 Pedro é aquela em que o autor (que não é, obviamente, o Pedro dos evangelhos) manifesta a necessidade de demonstrar que Jesus não é nenhum mito, porque "viu-o em esplendor e ouviu uma voz do céu":
2 Pedro 1: 16-18 Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: "Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido." E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo. 

Este autor pseudo-Pedro refere que viu Cristo em esplendor numa visão ou revelação colectiva em cima de algum monte santo. Isto está de acordo com a tese da não historicidade de Jesus pois o Cristo não necessitaria de ser humano para aparecer numa visão ou revelação aos apóstolos (bastava estes alucinarem ou fantasiarem sobre o tema). No entanto, este autor nega descaradamente que seguiu "fábulas artificialmente compostas" (ou mitos) para proclamar a vinda de Jesus Cristo!!!

O autor não parece estar inclinado a declarar que passou alguns meses a viajar e a realizar inúmeras actividades com Jesus Nazareno, tal como seria de esperar do personagem Pedro dos evangelhos. Este autor da Segunda Carta de Pedro apenas refere um episódio de revelação.

No evangelho de Marcos, no meio de todas as peripécias da narrativa, existe o episódio da transfiguração (Marcos 9:2-8) em que Jesus aparece a Pedro, Tiago e João em cima de um monte. Aqui Jesus aparece na companhia de Moisés e Elias (personagens do Antigo Testamento). É de salientar que este episódio é narrado no evangelho como sendo um acontecimento antes da crucificação de Jesus, de modo que não se trata de uma aparição pós-ressureição.


Carta atribuída a Tiago, “irmão” de Jesus

A autoria da Carta de Tiago é tradicionalmente atribuida a Tiago, irmão de Jesus, que é uma personagem dos evangelhos (Marcos 6:3). No entanto uma prova contra esta tradição é que o autor desta carta, ensina a “lei real segundo a escritura” (segundo o Antigo Testamento) e não segundo Jesus:
Tiago 2:8 Todavia, se estais cumprindo a lei real segundo a escritura: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem.

O autor referia-se ao texto do Antigo Testamento, onde esta lei foi registada em primeiro lugar (Levítico 19:18) mas, ao contrário do que acontece nos evangelhos, não credita a Jesus a ratificação desta lei (em Mateus 22:39 e também em Marcos 12:31 e Lucas 10:27).
Mateus 22:35-39 e um deles, doutor da lei, para o experimentar, interrogou- o, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: ... Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

Paulo, também mencionou esta lei sem creditá-la a Jesus:
Romanos 13:9 Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. 
Gálatas 5:14 Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

Portanto o autor da Carta de Tiago é apenas mais um, entre os que escreveram o Novo Testamento, que desconhecia os evangelhos e Jesus Nazareno.

Este autor parece também desconhecer as fronteiras entre as Escrituras Sagradas Judaicas e outras obras escritas, pois cita um texto que não se encontra no Antigo Testamento:
Tiago 4:5 Ou pensais que em vão diz a escritura: O Espírito que ele fez habitar em nós anseia por nós até ao ciúme?

Para finalizar, mais uma curiosidade: o autor promete aos fiéis “curas milagrosas”, com os ministros a substituirem os profissionais de saúde, crendices ainda hoje encontradas em alguns cultos Pentecostais:
Tiago 5:14-15 Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungido-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; ...

Carta atribuída a Judas, “irmão” de Jesus

Esta carta, cujo autor identifica-se com o nome Judas, manifesta um certo receio do autor face a ataques internos do grupo a que pertencia:
Judas 4 Porque se introduziram furtivamente certos homens, que já desde há muito estavam destinados para este juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.

O autor cita uma profecia que não se encontra no Antigo Testamento mas no Livro de Enoch (1º Enoch):
Judas 14-15 Para estes também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor com os seus milhares de santos, para executar juízo sobre todos ...


Não há nada no texto que evidencie que este Judas fosse o irmão de Jesus referido em Marcos 6:3, nem que este autor tivesse tido qualquer contacto com Jesus Nazareno.




Um comentário:

  1. Esse texto é uma pressão só. Não cumpre o que o título promete, nenhum dos dados apresentados aponta para um questionamento factual da autoria das cartas. (Obs. "Iletrado" significa que não eram sacerdotes (ou teólogos) não eram instruídos nas SAGRADAS LETRAS e não que seriam analfabetos.

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