domingo, 9 de setembro de 2018

Século II - Plínio, o Jovem




Plínio, o Jovem (c. 61 a 114 EC)


Como era o cristianismo nos séculos I e II?.

Os primeiros escritos que temos dos cristãos são as cartas de Paulo - as cartas autênticas de Paulo, já que várias delas são falsificações, mas há pelo menos sete cartas autênticas - escritas nos anos 50 EC.

Nas suas cartas, Paulo refere que a sua actividade já teria uns 15 anos, admitindo, também, que existiam uns outros apóstolos em actividade em tempos anteriores a ele. Portanto é provável que o cristianismo tenha tido origem nos anos 20 ou 30 EC.

Os evangelhos canónicos só aparecem cerca de vinte a quarenta anos depois das cartas de Paulo - foram escritos entre 70 e 110 EC.

Mas a primeira vez que lemos genuinamente sobre os cristãos de parte de algum autor não cristão (há algumas afirmações sobre Josefo mencionar cristãos antes mas são duvidosas) são as cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a 114 EC) ao imperador Trajano em 112 EC.

Plínio, o Jovem, quando era governador da Bitínia (que fica no que é agora o norte da Turquia), recebeu uma denúncia contra cristãos. Plínio não sabia o que fazer sobre isso, então escreveu ao imperador Trajano, dizendo basicamente "Eu nunca lidei com cristãos antes, e não sei de que crimes eles são supostamente culpados", explicando o procedimento que considerou adequado, e perguntando ao imperador Trajano se tinha procedido bem.

Carta de Plínio a Trajano (carta 97)  
Senhor,
É regra para mim submeter-te todos os assuntos sobre os quais tenho dúvidas, pois quem mais poderia orientar-me melhor em minhas hesitações ou me instruir na minha ignorância? 
Nunca participei de inquéritos contra os cristãos. Assim, não sei a quais factos e em que medidas devem ser aplicadas penas ou investigações judiciárias. Também me pergunto, não sem perplexidade: deve-se considerar algo com relação à idade, ou a criança deve ser tratada da mesma forma que o adulto? Deve-se perdoar o arrependido ou o cristão não lucra nada tendo voltado atrás? É punido o nome de “cristãos”, mesmo sem crimes, ou são punidos os crimes que o nome deles implica? 
Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma. 
Bem cedo, as acusações se espalharam, como geralmente acontece, por causa dos procedimentos em andamento, e vários incidentes ocorreram. 
Recebi uma denúncia anónima, contendo grande número de nomes. Os que negavam ser cristãos ou tê-lo sido, se invocassem os deuses segundo a fórmula que havia estabelecido, se fizessem sacrifícios com incenso e vinho para a tua imagem (que eu havia mandado trazer junto com as estátuas dos deuses) e, se além disso, amaldiçoavam a Cristo – coisas estas que são impossíveis de se obter dos verdadeiros cristãos – achei melhor libertá-los. 
Outros, cujos nomes haviam sido fornecidos por um denunciante, disseram ser cristãos e depois o negaram: haviam sido e depois deixaram de ser, alguns há três anos, outros há mais tempo, alguns até há vinte anos. Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas. 
Então achei necessário arrancar a verdade, por meio da tortura, de duas escravas que eram chamadas ministrae, mas nada descobri além de uma superstição irracional e sem medida. Por isso, suspendi o inquérito para recorrer ao teu conselho.
O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la.
Com certeza, sei que os templos desertos até há pouco, começam a ser novamente frequentados; que as solenidades sagradas até há pouco interrompidas, são retomadas; e que, por toda a parte, voltam a vender-se a carne das vítimas, até há pouco sem compradores. Disto pode-se concluir que uma multidão de pessoas poderia ser recuperada se fosse aceite o arrependimento delas.


Temos também a carta do imperador Trajano de resposta:

Seguiste a atitude correta, exactamente a que devias ter, no exame das causas daqueles que te foram denunciados como cristãos. 
Não há como se estabelecer uma regra geral, que tenha valor de norma fixa. [Porém,] não deve ser objecto de investigação por iniciativa oficial. Se forem denunciados e confessarem, devem ser condenados observando-se a seguinte restrição: aquele que negar ser cristão, mesmo sendo suspeito com relação ao passado, e oferecer prova clara disso, sacrificando aos nossos deuses, seja perdoado por seu arrependimento.
Quanto às denúncias anónimas, não devem ser consideradas em nenhuma acusação, pois são um exemplo detestável e não são dignas da nossa época.


É importante referir que esta altura já os Evangelhos existiam por cerca de trinta anos.

Mas quem era Plínio, o Jovem?
  • Nasceu em 61 EC - por volta do tempo do incêndio de Roma, sobre o qual Nero alegadamente culpou os cristãos;
  • Foi um senador romano por 25 anos;
  • Foi o equivalente ao chefe da polícia de Roma, durante vários anos;
  • Foi o equivalente de Procurador Geral para todo o império por vários anos;
  • Foi co-presidente de todas as províncias - o posto mais elevado que se poderia ter, respondendo directamente ao próprio imperador;
  • Foi governador de várias províncias;

Ele teve todos estes cargos antes de ele escrever esta carta sobre os cristãos por volta de 112 EC (já perto do fim da sua vida).

É importante considerar isso porque se houvesse alguém no Império Romano que soubesse algo sobre os cristãos, deveria ser Plínio, mas ele demonstra não saber nada sobre os cristãos, como se nunca tivesse estado presente num julgamento de cristãos nem soubesse do que eles poderiam ser acusados.

O que isso indica é que, mesmo em 112 EC, para uma religião que começou nos anos 30 EC, os cristãos eram um movimento muito insignificante. Sim, depois de quase 80 anos de evangelização da religião em muitas comunidades do império, os cristãos ainda passavam despercebidos face às autoridades romanas!

Plínio, então, alegou que havia uma lei na sua província (e em várias outras províncias neste tempo) contra a associações ilegais. Tipicamente, os governos proibiam associações de qualquer tipo, mas eventualmente atribuíam licenças a alguns grupos. Os grupos que se reuniam sem obter uma licença do governador eram considerados uma ameaça à ordem pública ou potencial traição ao estado.

Os cristãos referidos na denúncia que Plínio recebeu não tinham uma licença e, basicamente, Plínio decidiu processá-los por associação ilegal - não por serem cristãos ou por seguirem uma religião diferente da religião romana mas simplesmente pela razão política de se reunirem sem uma licença do governo.

A história oficial da Igreja refere que o cristianismo teve uma crescimento formidável em número de adeptos logo a partir de 33 EC. Mas a inesperada ignorância de Plínio trai este conceito.

Na realidade, em 112 EC, o cristianismo era um pequeno culto marginal - só descolou e dominou os números da população depois de Constantino (272-337 EC), o primeiro imperador que se converteu ao cristianismo.

Outro conceito que a ignorância de Plínio sobre os cristãos trai é a alegação (por parte de Tácito) de que Nero culpou os cristãos do incêndio de Roma em 64 EC. Se em 112 EC os cristãos eram desconhecidos para Plínio, como é que eram suficientemente conhecidos para Nero os culpar (justamente ou injustamente) de um crime em 64 EC? Plínio deveria, no mínimo, saber que os cristãos já tinham sido acusados anteriormente (50 anos antes) de um grave crime.


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