quinta-feira, 14 de junho de 2018

Século I - Pilatos



Fontes

Nos evangelhos, Pilatos recusou-se a condenar Jesus de Nazaré mas, perante uma multidão de judeus histéricos, foi forçado a executá-lo. Infelizmente, a verdade histórica está pouco presente nos evangelhos, que são tratados teológicos. Escritos nas últimas décadas do primeiro século, os autores queriam mostrar que o cristianismo não era uma organização subversiva. Estas histórias sobre as dúvidas de Pilatos e sobre a agitação judaica podem ter sido exageradas, se não inventadas.

Se nos voltarmos para as fontes judaicas, encontramos o problema oposto. Escrevendo depois da guerra entre os judeus e os romanos de 66-70 EC, o historiador judeu Flávio Josefo tenta explicar ao público não-judeu que o mau exercício de poder por parte de certos governantes locais acrescentava combustível a um incêndio latente. Seria um recado às elites romanas para não escolherem governantes prepotentes para administrarem as províncias do império.

No texto conhecido como "Embaixada a Gaio [Calígula]", Filo de Alexandria inclui uma carta do príncipe judeu Herodes Agripa (neto de Herodes o Grande) ao imperador Calígula, na qual a tentativa deste de ter a sua estátua erguida no Templo de Jerusalém é comparada à anterior tentativa de Pilatos de ter escudos pagãos colocadas no seu palácio de Jerusalém. Segundo o autor desta carta, Pilatos foi corrigido pelo imperador Tibério, cujo comportamento é apresentado como exemplar. Para apresentar Tibério como um governante virtuoso, Pilatos tinha que ser apresentado como incompetente. Além disso, deve-se notar que Agripa queria se tornar rei da Judéia; um retrato negativo da administração romana poderia convencer o imperador de que haveria uma necessidade prática para a sua ascensão. A carta serviu ambos os propósitos: Calígula recuou e Herodes Agripa foi nomeado rei da Judéia.


O incidente com os ícones pagãos

Pilatos chegou a Cesaréia (capital administrativa da Judeia) por volta de 26 EC. Quase imediatamente começaram os problemas: os seus soldados trouxeram símbolos pagãos para Jerusalém (cidade sagrada para os judeus) e quase toda a população marchou para Cesaréia, implorando ao novo governador que removesse estes objectos ofensivos.

Existem três relatórios sobre o incidente.

O mais antigo é escrito por Filo nos anos quarenta e é extremamente hostil a Pilatos, pelas razões acima descritas. Filo era um homem adulto em 26 EC, no entanto, não estava presente em Jerusalém, mas sim em Alexandria. Portanto, Filo escreve sobre algo que lhe terá sido relatado por terceiros.

Filo de Alexandria, "Embaixada a Gaio", 299-305
Pilatos era um oficial que havia sido nomeado prefeito da Judéia. Com a intenção de aborrecer os judeus em vez de honrar Tibério, ele colocou escudos dourados no palácio de Herodes, na Cidade Santa. Eles não tinham nenhuma figura e nada mais que fosse proibido, mas apenas a inscrição mais breve possível, que afirmava duas coisas - o nome do dedicador e aquele da pessoa em cuja honra a dedicação foi feita.
Mas quando os judeus em geral souberam dessa acção, que já era amplamente conhecida, eles escolheram como seus porta-vozes quatro filhos do rei [Herodes, o Grande], que gozavam de prestígio igual ao dos reis, e seus descendentes, seus próprios oficiais, e imploraram a Pilatos que desfizesse a sua inovação na forma dos escudos, e não violasse seus costumes nativos, que até então tinham sido invariavelmente preservados por reis e imperadores.
Quando Pilatos, que era um homem de disposição inflexível, teimosa e cruel, obstinadamente recusou, eles gritaram: "Não cause uma revolta! Não cause uma guerra! Não quebre a paz! Desrespeito às nossas antigas leis não traz honra! Não faça de Tibério uma desculpa para insultar a nossa nação, pois ele não quer que nenhuma das nossas tradições seja abolida! Se você disser que ele [Tibério] deseja isso, mostre-nos algum decreto ou algo do tipo, para que deixemos de o incomodar e a passemos a apelar ao nosso senhor [Tibério] por meio de uma embaixada".
Essa última observação exasperava Pilatos sobretudo, pois temia que, se realmente enviassem uma embaixada, eles também fizessem acusações contra o resto de sua administração, especificando em detalhes sua venalidade, sua violência, seus roubos, seus assaltos, sua comportamento abusivo, suas freqüentes execuções de prisioneiros inexperientes e sua ferocidade selvagem sem fim.
Então, como ele era uma pessoa rancorosa e raivosa, ele estava em um sério dilema; pois ele não tinha a coragem de remover o que ele havia estabelecido, nem o desejo de fazer qualquer coisa que agradasse seus súbditos, mas ao mesmo tempo estava ciente da firmeza de Tibério nesses assuntos. Quando os oficiais judeus viram isso, e perceberam que Pilatos estava lamentando o que havia feito, embora não quisesse mostrá-lo, escreveram uma carta a Tibério, alegando o caso com a maior ênfase possível.
Que palavras, que ameaças proferidas por Tibério contra Pilatos quando ele as leu? Seria supérfluo descrever sua raiva, embora ele não fosse facilmente levado à raiva, já que sua reacção fala por si mesma.
Pois, imediatamente, sem sequer esperar até o dia seguinte, ele escreveu a Pilatos, censurando-o e repreendendo-o mil vezes por sua nova audácia e dizendo-lhe para remover os escudos imediatamente e levá-los da capital para a cidade litoral de Cesaréia, [...] a ser dedicada no templo de Augusto. Isso foi devidamente feito. Dessa forma, tanto a honra do imperador quanto a política tradicional em relação a Jerusalém foram igualmente preservadas.


Um outro relato sobre o incidente foi escrito por Flávio Josefo na obra "Guerra dos Judeus", que foi publicada nos anos setenta. O relato será baseado em fontes orais pois Josefo não era nascido em 26 EC.

Flávio Josefo, Guerra dos Judeus, Livro II, 9:2-3 
Pilatos, enviado por Tibério como prefeito da Judéia, introduziu em Jerusalém - coberto pela noite - as efígies de César naquilo que são chamadas de estandartes.
Este procedimento, quando o dia rompeu, despertou imensa comoção entre os judeus. Os que se encontravam no local estavam consternados, considerando que suas leis foram pisoteadas, já que essas leis não permitem que nenhuma imagem seja erguida na cidade; enquanto a indignação dos habitantes da cidade agitava os conterrâneos, que se aglomeravam em multidões.
Indo apressadamente ter com Pilatos a Cesaréia, os judeus imploraram que ele removesse os estandartes de Jerusalém e respeitasse as leis de seus antepassados. Quando Pilatos se recusou, eles prostraram-se ao redor de seu palácio e, durante cinco dias e noites, permaneceram imóveis naquela posição.
No dia seguinte, Pilatos sentou-se na tribuna do grande estádio e, convocando a multidão com a aparente intenção de se lhe dirigir, fez um sinal combinado com os soldados armados para cercar os judeus.
Encontrando-se cercados por um triplo anel de tropas, os judeus ficaram impressionados com essa visão inesperada. Pilatos, depois de ameaçar matá-los, se eles se recusassem a admitir as imagens de César, fez sinal aos soldados para desembainharem as espadas.
Então os judeus, como por acção conjunta, lançaram-se em um corpo no chão, estenderam seus pescoços, e exclamaram que preferiam morrer do que transgredira Lei. Superado com espanto diante de tão intenso zelo religioso, Pilatos deu ordens para a imediata remoção dos estandartes de Jerusalém.


Josefo recontou sua história, nos anos noventa, quando escreveu "Antiguidades Judaicas".
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18.770
Pilatos, governador da Judéia, enviou dos quartéis de inverno de Cesaréia a Jerusalém tropas que traziam em seus estandartes a imagem do imperador, o que é tão contrário às nossas leis que nenhum outro governador antes dele o fizera.
As tropas entraram de noite, e por isso apenas no dia seguinte é que se percebeu. Imediatamente os judeus foram em grande número procurar Pilatos em Cesaréia e durante vários dias rogaram-lhe que removesse aqueles estandartes. Ele negou o pedido, dizendo que não o poderia fazer sem ofender o imperador. Mas como eles continuavam a insistir, ordenou aos seus soldados, no sétimo dia, que secretamente se conservassem em armas e subiu em seguida ao tribunal que mandara erguer de propósito no local dos exercícios públicos, porque era o lugar mais apropriado para escondê-los. 
Os judeus, porém, insistiam no pedido. Ele então deu o sinal aos soldados, que os envolveram imediatamente por todos os lados, e ameaçou mandar matá-los se continuassem a insistir e não voltassem logo cada qual para a sua casa. A essas palavras, eles lançaram-se todos por terra e apresentaram-lhe a garganta descoberta, para mostrar que a observância de suas leis lhes era muito mais cara que a própria vida. Aquela constância e zelo tão ardentes pela religião causou tanto assombro a Pilatos que ele ordenou que se levassem os estandartes de Jerusalém para Cesaréia.


Interpretação

Existem duas diferenças marcantes entre estes relatos. Para começar, Filo sabe sobre uma petição de quatro filhos do rei Herodes mas não nos diz nada sobre os cinco dias de protestos que Josefo refere. A outra diferença é que Flávio Josefo acha que o objecto da revolta eram estandartes do exército com a imagem do imperador, enquanto Filo menciona escudos dourados com uma inscrição. Diferenças como essas são esperadas quando a palavra falada é a forma mais importante de comunicação.

Quaisquer que sejam suas diferenças, Filo e Flávio ​​Josefo têm uma coisa em comum. Eles não contam a história do ponto de vista de Pilatos ou dos romanos, mas contam uma história judaica, que é extremamente hostil ao governador. Mas é improvável que Pilatos tenha deliberadamente provocado os judeus. Apenas um anti-semita o teria feito, e o imperador Tibério era inteligente demais para enviar um antissemita à Judéia. Os romanos podiam ser mestres duros, mas não eram idiotas.

Deve ter sido um incidente impensado. Provavelmente os soldados não sabiam que era proibido trazer seus estandartes (ou escudos) para a cidade sagrada.



O Tesouro do Templo

Josefo conta sobre outro incidente violento que envolveu o governador da Judeia. Pilatos exigiu dinheiro do Templo judaico para pagar a construção de um aqueduto - para fornecer água a Jerusalém - e o povo revoltou-se por se tratar de dinheiro sagrado.

Josefo, por volta de 75 EC, narrou o episódio em "Guerra dos Judeus":
Flávio Josefo, Guerra dos Judeus, Livro II, 9:4  
Noutra ocasião, [Pilatos] provocou um novo tumulto ao gastar na construção de um aqueduto o tesouro sagrado conhecido como korban - a água era trazida de 400 estádios de distância. Indignada com este procedimento, a populaça formou um cordão à volta de tribuna de Pilatos, que estava de visita a Jerusalém, e cercou-o com grandes clamores. Ele, prevendo o tumulto, tinha misturado um grupo de soldados com a multidão, armados mas disfarçados à civil, com ordens para não usarem as armas mas para espancarem quaisquer agitadores à mocada. Da tribuna, deu o sinal combinado. Pereceu um grande número de Judeus, alguns das pancadas que sofreram e outros espezinhados pelos companheiros na debandada que se seguiu. Acobardada pelo destino das vítimas, a multidão ficou reduzida ao silêncio.


E voltou a contar, por volta de 95 EC, em "Antiguidades Judaicas":
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18.771
Em seguida, Pilatos tentou retirar dinheiro do tesouro sagrado para fazer vir a Jerusalém, pelos aquedutos, a água cujas nascentes distavam uns duzentos estádios. O povo ficou de tal modo revoltado que veio em grupos numerosos queixar-se e rogar-lhe que não continuasse aquele projecto. E, como acontece ordinariamente no meio de uma população exaltada, alguns chegaram de dizer-lhe palavras injuriosas. Ele ordenou então aos soldados que escondessem cacetes debaixo da túnica e rodeassem a multidão. Quando recomeçaram as injúrias, sinalizou aos soldados para que executassem o que havia determinado. Eles não somente obedeceram, como fizeram mais do que ele desejava, pois espancaram tanto os sediciosos quanto os indiferentes. Os judeus não estavam armados, e por isso muitos morreram e vários foram feridos. E a sedição terminou.

Como curiosidade, é na sequência deste texto sobre Pilatos que aparece o famoso "Testimonium Flavianum", a duvidosa passagem onde supostamente Flávio Josefo menciona Jesus como uma personagem histórica.


Conclusões

Os dois autores judeus, Filo e Josefo, mostram um Pilatos demasiado intransigente e violento. Os evangelhos descrevem um Pilatos demasiado brando.

Em suma, podemos concluir que os evangelhos não representam a verdade histórica quando nos mostram um Pilatos bem-intencionado, mas fraco. Por outro lado, as duas fontes judaicas têm suas próprias agendas.


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