Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Os romanos na Palestina


Existiram várias alianças diplomáticas entre os Asmoneus e a República de Roma desde Judas Macabeu, por volta de 164 AEC, e durante cerca de 100 anos.

Na sequência de disputas entre dois irmãos Asmoneus, Hircano II e Aristóbolo II, filhos de Alexandre Janeu, o general romano Pompeu invadiu vitoriosamente Jerusalém em 63 AEC e, consequentemente, subjugou toda a Judeia (território correspondente ao antigo Reino de Judá acrescido da parte sul do Reino de Israel). Colocou Hircano como etnarca (um título inferior a rei) da Judeia mas, como responsável dos assuntos de estado, ficou Antipatro, um aristocrata idumeu (da Idumeia, região a sul da Judeia).

Herodes, filho de Antipatro, mais tarde conseguiu ficar rei de um território de dimensões semelhantes às do reino Asmoneu, ficando conhecido pelos historiadores como Herodes o Grande para o distinguir de todos os outros Herodes que foram seus descendentes.

As narrativas do Novo Testamento sobre o nascimento de Jesus enquadram-se por volta do tempo em que Herodes o Grande morreu, ou seja, por volta de 4 AEC (segundo uma boa parte dos historiadores).

Datas
Rei ou Governador
Descrição
63 a 40 AEC
Hircano II
Etnarca, mas quem governava era Antipatro o Idumeu
47 a 44 AEC
Antipatro, o Idumeu
Procurador de Roma na Judeia, pai de Herodes o Grande
40 a 37 AEC
Antígono
Filho de Aristóbulo II (dos Asmoneus)
37 a 4 AEC
Herodes o Grande
Rei da Judeia, Galileia, Samaria e outros territórios adjacentes

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Jesus no Talmude


O Talmude contém os seguintes documentos sobre uma ou mais personagens com o nome Yeshu (Jesus) ben Pandera ou ben Stada (filho da infiel):

Talmud Shabbat, 104b – [sobre o uso de tatuagens ou marcas permanentes] Ensina-se: Rabi Eliezer disse aos sábios: Ben Stada não trouxe a magia com ele do Egipto num corte da sua pele?  Disseram-lhe: Era um tolo e não se pode trazer a prova de um tolo.
 Talmud Sanhedrin, 67a - Ensina-se: Para todos as outras puníveis com pena de morte [excluindo a idolatria] nós não ocultamos testemunhas. Como  tratam o acusado de idolatria? Apontam uma lâmpada para ele na câmara interna e colocam testemunhas na câmara exterior de modo que possam o ver e ouvir mas este não as pode ver ou ouvir. Diz-se-lhe "diz-me outra vez o que me disseste em privado". Se ele disser "como podemos nós esquecer o nosso Deus no céu e praticar idolatria?" e arrepende-se, tudo bem. Se disser "esta é nossa obrigação e o que nós devemos fazer" as testemunhas que o ouvem da parte externa devem dirigi-lo ao pátio e o apedrejar.
E assim fizeram a Ben Stada, em Lud [Lydda, a pouca distância de Jerusalém], e penduraram-no na véspera da Páscoa.
Ben Stada era Ben Pandira. Rabi Chisda disse: O marido [da mãe] era Stada e o amante era Pandira.
Não era o marido [da mãe] Pappos Ben Yehudah? O nome de sua mãe era Stada.
Mas não era a sua mãe, Miriam, cabeleireira [megadla nashaia] das mulheres? Como se diz em Pumbedita: Afastou-se [stat Da] do seu marido. 
 Talmud Sanhedrin 107b, Sotah 47a - Que há sobre o Rabi Yehoshua ben Perachiah?
Quando o rei João [Hircano] matou os rabis, o Rabi Yehoshua ben Perachiah [e Yeshu] foram para Alexandria no Egipto. Quando veio a paz, Simão ben Shetach enviou-lhe uma mensagem: “De mim [Jerusalem], a cidade santa, para ti Alexandria do Egipto. O meu marido está no teu seio e eu fui esquecida.”
[Yehoshua ben Perachiah] saíu e chegou a uma determinada estalagem onde lhe mostraram muito respeito. Ele disse: “que bonita é esta estalagem [Achsania, estalajadeira]”.
[Yeshu] disse: “Rabi, ela tem olhos estreitos”.
[Yehoshua ben Perachiah] disse-lhe: “malvado, é assim que empenhas o teu pensamento?”. Enviou 400 trombeteiros e anunciou a sua expulsão.
[Yeshu] apresentou-se a [Yehoshua ben Perachiah] muitas vezes dizendo-lhe: “Aceita-me”. Mas este não lhe prestava atenção.
Um dia, [Yehoshua ben Perachiah] estava a recitar a Shema [durante a qual não se pode ser interrompido]. Ele estava disposto a aceitar [Yeshu] e fez-lhe sinal com a mão. Mas [Yeshu] pensou que [Yehoshua ben Perachiah] estava a repeli-lo, por isso preparou um tijolo e começou a idolatrá-lo.
[Yeshu] disse a [Yehoshua Ben Perachiah]: Ensinaste-me que qualquer um que peque e seja causa para outros pecarem, não devem ter oportunidade de arrependimento.
E o mestre disse: Yeshu [ha-Notzri] praticava magia e levou Israel à decadência. 
 Talmud Sanhedrin, 43a - Ensina-se: Na véspera da Páscoa penduraram Yeshu; o declamador anunciara por quarenta dias: "[Yeshu] vai ser apedrejado por prática de magia e por seduzir e conduzir Israel à transgressão. Qualquer um que saiba algo que o possa absolver deve se apresentar." Mas ninguém se apresentou e penduraram-no na véspera da Páscoa.  ...
Ensina-se: Yeshu teve cinco discipulos - Matai, Nekai, Netzer, Buni e Todah. ... (e os cinco foram julgados em tribunal e executados). 
 Tosefta Chullin 2:23 - Aconteceu que o Rabi Elazar ben Damah foi mordido por uma serpente e Yakob (ou Jacob, Iago, Tiago) da vila Sechania o curou em nome de Yeshu ben Pandira, mas o Rabi Yishmael não o permitiu.

Estas passagens do Talmude, estejam relacionadas entre si ou não, parecem evocar acontecimentos muito semelhantes àqueles descritos relativamente a Jesus ben Pandera e a Jesus Nazareno.

Uma notável curiosidade é que numa das passagens do Talmude, a  Maria mãe de Yeshu é referida como cabeleireira de mulheres, que em hebraico é megadla nashaia. Talvez esta designação esteja na origem da personagem de Maria Madalena (Miriam Magdala)!

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Yeshu ben Pandera (Jesus filho de Pandera)


O manuscrito Sepher Toldoth Yeshu (Livro da Genealogia de Jesus, em hebraico) descreve um Yeshu ben Pandera (Jesus filho de Pandera) do tempo dos Asmoneus da seguinte maneira:
Resumo do Sepher Toldoth Yeshu (tradução livre do inglês) 
No reinado de Alexandre Janeu, um inútil devasso chamado José Pandera vivia perto da casa de uma jovem chamada Maria, noiva de um certo homem de nome João. Pandera seduziu Maria e esta ficou grávida.
Quando João soube que a sua noiva estava grávida, dirigiu-se ao seu perceptor Simão ben Shetach. Este aconselhou-o a arrolar testemunhas para levar o culpado ao Sinédrio, mas João, para evitar a vergonha, fugiu para longe. 
Entretanto Maria deu à luz um rapaz e chamou-o Jesus (heb. Yehoshua, Yeshu). Quando cresceu, o rapaz mostrava-se insolente com os magistrados do Sinédrio. E as pessoas diziam “Que bastardo!”. Simão ben Shetach disse, então: “Sim, este é o filho de Pandera e Maria que era noiva de outro”. Os outros disseram: “Portanto, ele é mesmo um bastardo filho de uma adúltera!”. 
Publicou-se um édito, expulsando-o do seu meio, e Jesus fugiu para a Galiléia, onde morou muitos anos. Quando também na Galiléia soube-se que Jesus era filho ilegítimo ele retornou secretamente a Jerusalém. 
Ora, havia uma pedra no Templo onde estava gravada a Shem ha-Mephorash (a Palavra Inefável, o nome secreto de Deus, que dava grandes poderes a quem a conhecia). Essa pedra foi descoberta por David no fundo de um abismo e foi colocada no santíssimo do Templo. Posteriormente, os homens sábios, receando que alguém imprudentemente tomasse conhecimento da Palavra Inefável escrita na pedra, mandaram colocar dois leões mágicos de bronze à entrada do santíssimo do Templo que rugiriam provocando um total esquecimento.
Jesus entrou no Templo, e registou as letras sagradas num pergaminho. Depois cortou a sua carne, escondeu o pergaminho dentro e voltou a fechar a carne. Quando saíu, os leões rugiram e ele esqueceu-se de tudo mas, já fora da cidade, voltou a abrir a sua carne e recuperou o pergaminho. 
Depois foi à cidade e clamou a todos: “Não sou filho de uma virgem? Eu sou o Filho de Deus que Isaías profetizou que viria de uma virgem!”. Os que o ouviam diziam: “Mostra-nos um sinal”. Levaram-lhe ossos de um morto e ele devolveu-lhe a vida, restaurando-lhe tendões, carne e pele. Levaram-lhe um leproso e ele curou o leproso. E os que viram ajoelharam-se e disseram “Tu és o Filho de Deus”. 
Mas os anciãos sábios ficaram apreensivos com as notícias e montaram uma cilada a Jesus, enviando-lhe mensageiros que lhe disseram: “Os ilustres de Jerusalém chamam-te porque ouviram que és o Filho de Deus”. Jesus respondeu “irei se me receberem tal como os escravos recebem o seu senhor”.
Estabelecido o acordo, Jesus dirigiu-se a Jerusalém montado num burro e foi recebido com grande pompa. 
Entretanto os sábios queixaram-se à rainha [Salomé Alexandra] e exigiram a pena de morte para Jesus. Mas a rainha, não convencida da acusação, pediu uma audiência com Jesus.
Jesus foi então levado à presença da rainha e mostrou os seus poderes, curando um leproso e ressuscitando um morto. A rainha disse então aos sábios: “Porque dizem que este homem é um feiticeiro? Pois eu vi que ele é realmente o Filho de Deus. Desapareçam e nunca mais me tragam uma acusação destas!”. 
Depois os sábios reuniram-se novamente e decidiram escolher um deles para aprender a Shem ha-Mephorash e para provarem que assim poderiam fazer o mesmo que Jesus. Um deles, de nome Judas, propos-se para este desafio. 
Entretanto a rainha convocou uma nova audiência, desta vez com Judas e Jesus. Jesus começou por dizer “Assim como as escrituras dizem acerca de mim eu vou subir ao céu para o meu Pai celeste” e, proferindo a Shem ha-Mephorash, comecou a subir aos céus. Judas também proferiu a fórmula secreta e, subindo também, começou a puxar Jesus para baixo. Combateram até que Judas derramou o seu suor em Jesus tornando-o impuro. Tendo ambos ficado impuros com o suor, e como a Shem ha-Mephorash só funciona em estado de pureza, caíram ao solo, e foi declarada a sentença de morte a Jesus. Mas os discípulos conseguiram fazer Jesus escapar-se para fora da cidade. 
Jesus dirigiu-se ao Jordão, onde lavou-se e purificou-se, recuperando os seus poderes. Depois pegou em duas pedras de moinho, colocou-as a flutuar na água e sentou-se nelas a pescar para uma multidão que comeu os peixes. 
Quando os sábios souberam que Jesus estava novamente a exibir poderes, Judas propôs-lhes que iria misturar-se secretamente com os discípulos de Jesus. Assim o fez e, numa noite, Judas encontrou Jesus a dormir numa tenda, cortou-lhe a carne e removeu-lhe o pergaminho. 
No dia da festa dos pães não fermentados Jesus, com a intenção de ir ao Templo recuperar a palavra secreta, dirigiu-se com os seus discípulos para Jerusalém. Entretanto Judas foi avisar os sábios para estarem atentos porque ele iria denunciar Jesus, prostrando-se aos seus pés. E assim, Jesus foi capturado.
Jesus foi amarrado a um pilar e chicoteado. Colocaram-lhe uma coroa de espinhos e, quando ele pediu água, deram-lhe vinagre para beber. Jesus então proferiu “Meu Deus, porque me abandonaste?”. Depois, foi levado ao Sinédrio para lhe proferirem a pena de morte e, por fim, foi apedrejado até à morte. 
Procuraram uma árvore para o pendurarem, mas não encontraram nenhuma capaz de suportar o peso de um homem. De modo que o penduraram numa haste de um grande repolho (!) mas, à noite, enterraram-no no local onde fora apedrejado. Judas, receando que os discípulos roubassem o corpo e dissessem que Jesus tinha ascendido aos céus, removeu-o da sepultura e escondeu-o no seu jardim. 
No dia seguinte, os discípulos não encontraram o corpo na sepultura e proclamaram que Jesus tinha ascendido aos céus. Por isso a rainha convocou todos os sábios com o seguinte ultimato “Se não encontrarem o corpo serão todos mortos!”. 
Por fim, Judas entregou o corpo e eles exibiram-no arrastado por um cavalo.

Esta história faz um retrato muito desfavorável de uma personagem chamada Jesus ben Pandera, descrevendo-a como um inimigo dos judeus. A personagem principal é um pretenso Messias que é desmascarado por um homem chamado Judas.
A grande curiosidade aqui é que esta história possui contornos semelhantes à do Jesus Nazareno dos evangelhos, embora com um enquadramento histórico diferente.

O enquadramento histórico do Sepher Toldoth Yeshu coloca o nascimento de Jesus ben Pandera no reinado de Alexandre Janeu, entre 103 e 76 AEC, e a sua morte durante o reinado de Salomé Alexandra, entre 76 e 67 AEC. Existe, portanto, um lapso de cem anos em relação ao tempo dos evangelhos, ou seja, ao tempo de Herodes Antipas e Pilatos e, por este raciocínio, poderíamos considerar que uma versão primitiva do Sepher Toldoth Yeshu antecedeu a escrita dos evangelhos.


Sepher Toldoth Yeshu
Evangelhos canónicos
Enquadramento histórico
Reinado de Alexandre Janeu e de Salomé Alexandra (104-67 AEC)
Entre o final da vida de Herodes o Grande e a prefeitura de Poncio Pilatos (7 AEC a 36 EC)
Nome de Jesus
Jesus ben Pandera
Jesus Nazareno
Papel de Jesus
Um pretenso Messias que é desmascarado
O verdadeiro Messias, o Cristo, o filho de Deus.
Papel de Judas
Inimigo declarado
Discípulo que se torna traidor

Não pode ser coincidência, por exemplo, o Evangelho Segundo Mateus iniciar-se com a frase “Livro da genealogia de Jesus” (ou “Livro da história de Jesus”), que deveria ser provavelmente o nome original deste evangelho, antes de ser conhecido pela sua designação actual.

Por volta de 248 EC, o apologista cristão Orígenes escreveu no seu livro Contra Celsus:
Contra Celsus (de Orígenes), Livro I, Capítulo XXXII
... [Celsus], falando da mãe de Jesus, disse: “quando ela estava grávida foi expulsa pelo carpinteiro do qual estava noiva, por culpa de adultério, porque concebera um filho de um soldado chamado Pandera (Panthera)” ...

Orígenes referia-se ao livro Verdadeira Palavra do autor romano Celsus que depreciava as crenças cristãs. Este livro terá sido escrito por volta de 178 EC. Presumivelmente Celsus terá baseado a frase (citada por Orígenes setenta anos depois) numa história semelhante ao Sepher Toldoth Yeshu.

Por outro lado, tendo em conta que não se sabe a data de sua composição, a história de Jesus ben Pandera pode ter a sua origem numa ridicularização dos cristãos, já depois dos evangelhos estarem escritos. Mas esta hipótese não explica uma diferença tão grande no enquadramento histórico.

Os Macabeus e o reino Asmoneu


Durante muitos anos, os judeus foram governados por sumo-sacerdotes, que pagavam tributo aos sucessivos reis seleucidas, até que, cerca de 170 AEC, o rei selêucida Antíoco IV Epifânio tentou forçar os judeus a uma conformidade com a cultura e hábitos gregos, convertendo o Templo de Jerusalém para o culto dos deuses gregos.

Isso causou uma revolta dos judeus, iniciada por um sacerdote chamado Matatias, da família dos Asmoneus (ou filho de Asmónio), cujos filhos ficaram conhecidos pelo nome Macabeus (heb. makabim, martelo). A revolta foi bem sucedida e trouxe a independência dos judeus durante cerca de cem anos num território de dimensões semelhantes ao território do reino de David. A dinastia real fundada ficou conhecida como a dinastia dos Asmoneus, onde os reis acumulavam o cargo de sumo-sacerdote.

Os judeus têm, ainda hoje, uma celebração anual, designada por Hanukkah, em comemoração da vitória dos judeus sobre Antíoco, da restauração da independência e da re-dedicação do Templo para o culto de Yahveh em 165 AEC. No Novo Testamento, encontramos uma referência a esta festividade em João 10:22.

Datas
Rei/Líder
Descrição
167 a 160 AEC
Judas Macabeu
Líder dos Macabeus, filho de Matatias
161 a 143 AEC
Jónatas Macabeu
Líder dos Macabeus e sumo-sacerdote, filho de Matatias
142 a 135 AEC
Simão Macabeu
Príncipe dos judeus e sumo-sacerdote, filho de Matatias
134 a 104 AEC
João Hircano
Rei e sumo-sacerdote, filho de Simão Macabeu
104 a 103 AEC
Aristóbulo I
Rei e sumo-sacerdote, filho de João Hircano
103 a 76 AEC
Alexandre Janeu
Rei e sumo-sacerdote, filho de João Hircano
76 a 67 AEC
Salomé Alexandra
Rainha, mulher de Alexandre Janeu; o sumo-sacerdote era o seu filho Hircano II
67 a 63 AEC
Hircano II e Aristóbolo II
Filhos de Alexandre Janeu. Conflitos entre estes ditaram o fim da dinastia.

Enquanto os Macabeus ficaram na memória colectiva dos judeus, como restauradores da independência, os seus sucessores Asmoneus foram olhados com desconfiança por apresentarem-se com nomes gregos e, principalmente, por terem usurpado a realeza que deveria ser reservada aos herdeiros da Casa de David.

Durante os vários reinados Asmoneus, distinguiram-se duas facções políticas: os saduceus e os fariseus. Os saduceus eram apoiantes dos Asmoneus enquanto os fariseus, grupo ao qual pertenciam os Rabis, eram ferozes oponentes. Os saduceus eram ultra-ortodoxos que obrigavam a uma interpretação rígida do Torah enquanto os fariseus exigiam uma reforma, de modo a modernizar a aplicação da Lei.

O rei João Hircano perseguiu os fariseus, matando muitos Rabis. Mais tarde, muito depois dos Asmoneus, os Rabis começaram a compor o Talmude onde, ao longo de muitas décadas, foram registadas as novas interpretações e aplicações da Lei.

O período entre Testamentos


Nas próximas secções vamos debruçar-nos sobre o período que não tem representação no Antigo Testamento canónico, recorrendo, no entanto, a alguns livros deuterocanónicos como, por exemplo, Macabeus e também aos registos da História secular.

Data (AEC)
Acontecimentos relativos à Palestina
330
As conquistas de Alexandre Magno incluem os territórios da Palestina.
323
O Egipto e a Palestina ficam nas mãos de Ptolomeu I Soter (Lagus), companheiro de Alexandre.
203
Os selêucidas, que dominam o Médio Oriente, tomam a Palestina.
175
O rei selêucida, Antíoco IV Epifâneo, decreta a proibição total do judaísmo e a obrigatoriedade do culto dos deuses olímpicos.
165
Os irmãos macabeus são vitoriosos sobre os selêucidas e dominam a Palestina.
134
João Hircano, filho de Simão Macabeu, inicia a dinastia dos reis asmoneus.
63
O general romano Pompeu acaba com a dinastia dos asmoneus.

Alexandre Magno

Cerca de 330 AEC, um jovem conquistador, num curtíssimo espaço de tempo, levou a uma grande parte do mundo conhecido a cultura e civilização gregas, criando o chamado império helénico. Este império durou pouco tempo porque o jovem conquistador, Alexandre o Grande, filho de Filipe II da Macedónia, morreu aos trinta e dois anos, mas as suas influências perduraram por séculos. As conquistas de Alexandre incluiram os territórios palestinos que estavam sob domínio persa.

Assim, os judeus obtiveram também a sua quota de cultura grega. Uma das novidades que a cultura grega introduziu no judaismo foi o platonismo com a sua doutrina da imortalidade da alma. A partir desta fusão de culturas começaram a aparecer muitas variantes do judaísmo, apesar de sempre se manter um forte núcleo ortodoxo ou conservador. Por exemplo, no tempo de Jesus, os fariseus praticavam uma variante do judaísmo na qual a ressurreição fazia parte das suas crenças, mas os saduceus eram conservadores da tradição.

Antes da helenização, a preocupação religiosa dos judeus estava apenas ligada à sobrevivência da tribo, da raça e da nação judaica. O judeu devoto queria apenas ter uma existência materialmente confortável e honrada enquanto fosse vivo e deixar boas condições para os seus descendentes. Não tinha a mínima preocupação com uma salvação individual relacionada com uma ressurreição ou com uma vida eterna.

Os reinos e impérios helenísticos

Com a morte de Alexandre, em 323 AEC, o império conquistado foi dividido entre os seus principais generais:
-          Antigono I Monoftálmico (zarolho) ficou a dirigir uma parte do império centrado na Macedónia;
-          o Egipto, a Palestina e a Cirenaica (parte da actual Líbia) ficaram nas mãos de Ptolomeu I Soter (ou Lagus, a cuja dinastia veio a pertencer a famosa Cleópatra);
-          os territórios da Ásia ficaram sob o domínio de Seleuco I Nicátor, fundador da dinastia selêucida; posteriormente, por volta de 203 AEC, os selêucidas tomaram a Palestina ao reino Ptolomaico.

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Os persas devolvem autonomia aos judeus


O poder dos babilónios não durou muito. Passados cerca de sessenta anos depois da tomada de Jerusalém pelos babilónios, a Pérsia liderada por Ciro II o Grande dominava em toda a região do médio-oriente. Uma das políticas dos persas foi a defesa da identidade cultural e alguma autonomia política dos povos conquistados, por isso promoveu o repatriamento dos judeus de volta a Jerusalém.

Rei
Datas (AEC)
Descrição
Ciro II, o Grande
559-529
Grande conquistador do império da Pérsia. Derrotou os babilónios e autorizou os judeus libertos a tornarem-se autónomos em Jerusalém.
Cambises II
529-522  
Filho de Ciro, conquistou o Egipto para o império persa.
Dario I Histaspes
522-486
Tornou-se rei em virtude da morte dos filhos de Ciro (Cambises e Smerdis). Casou com Atossa, uma filha de Ciro. Tentou conquistar a Grécia.
Xerxes I
486-465
Filho de Dario I. Continuou os ataques à Grécia (por exemplo, a famosa batalha das Termópilas), mas foi derrotado.
Artaxerxes I
465-424
Filho de Xerxes I. Artaxerxes ou o seu pai é identificado, por tradição, com o rei Assuero do livro Ester do Antigo Testamento.
Dario III
336-330
Último rei do império persa. Derrotado por Alexandre o Grande

O rei Ciro II, apesar de ser um conquistador estrangeiro, no Antigo Testamento é considerado um salvador para os judeus, sendo mesmo designado como um Messias (esta palavra hebraica significa “rei escolhido por Deus”; em Isaías 45:1, na Septuaginta, uma antiga tradução grega, foi traduzida por Christos). E algum deste estatuto estendeu-se para os sucessores de Ciro no império persa: Dario, Xerxes e Artaxerxes. Isto leva a crer que alguns dos livros do Antigo Testamento foram escritos sob forte influencia persa.

Livro de Isaías

A bajulação dos israelitas em torno dos persas era tão grande, que o livro de Isaías, que se pretende ter sido escrito cerca de cento e cinquenta anos antes dos persas tomarem Babilónia, contém profecias acerca de Ciro em que o nome deste regente figura no texto (heb. Khóhresh, Isaías 44:28-45:1). O mais provável é Isaías ter sido escrito mais tarde ou terá sido modificado o seu texto de modo a conter “profecias” muito agradáveis a quem detinha o poder.

Livro de Ester

Não se percebe a razão do livro de Ester fazer parte do Antigo Testamento, porque:
-          no texto não encontramos uma única referência a Deus, por isso não deveria ser considerado como texto sagrado;
-          os protagonistas são Ester e o seu primo Mordecai, claramente os nomes das divindades persas Ishtar e Marduk que, na mitologia persa, também são primos;

O livro parece apenas um belo conto persa adaptado aos judeus. Neste conto, uma judia chamada Ester chega até ao trono persa, casando-se com o rei Assuero (desconhecido fora da Bíblia, mas a tradição identifica-o com Xerxes I ou Artaxerxes I). Depois ela e o seu primo Mordecai conseguem convencer o rei a anular um decreto-lei, que tinha sido fomentado por um maldoso ministro da corte, chamado Hamã, que ordenava o genocídio dos judeus em todas as províncias do império.

Os babilónios atacam Judá


Os babilónios

Nabucodonosor, por volta de 590 AEC, depois de derrotar os assírios (e o seu aliado egípcio, o faraó Necau), cercou e destruiu Jerusalém, deportando a elite dos judeus para Bablilónia, a capital do império, para serem servos.
Os judeus desenvolveram uma tal aversão pelos babilónios que a palavra Babilónia tornou-se para eles sinónimo de “repugnância”. O Salmo 137 é ilustrativo, especialmente a parte final:
Salmos 137
Junto aos rios de Babilônia, ali nos assentamos e nos pusemos a chorar, recordando-nos de Sião.
Nos salgueiros que há no meio dela penduramos as nossas harpas, pois ali aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções; e os que nos atormentavam, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. Mas como entoaremos o cântico do Senhor em terra estrangeira? ...
Ah! filha de Babilônia, devastadora; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós; feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedras.

O que os israelitas mais desejavam em relação aos babilónios era que se espatifassem as criancinhas destes contra os rochedos (dá para entender porque é que, 2.500 anos depois, os israelitas e os iraquianos ainda andam ressentidos uns com os outros...).

Livro de Daniel

O livro de Daniel assume-se como tendo a mais exacta descrição do período de exílio babilónico, insinuando-se como tendo sido escrito nessa mesma época pelo protagonista da história, Daniel, um suposto exilado. Grande parte do texto de Daniel tem tom profético, fazendo previsões históricas para os quatrocentos anos que se seguiram ao dominio babilónico. Com algum esforço de interpretação, estas previsões proféticas podem encontrar algum paralelo com os acontecimentos históricos entre 530 e 160 AEC.
O que leva a suspeitar que Daniel é mais um livro fraudulento, escrito muito depois do tempo que pretende (séculos depois), é que o texto indica que o autor possuia um conhecimento mais detalhado sobre o “futuro” (o pós-babilónico) do que sobre o “presente” (a ocupação babilónica).
Daniel é um dos grandes suportes da doutrina das Testemunhas de Jeová, o conhecido grupo proselitista controlado por uma multinacional de edição de publicações, a Watchtower Society. Este grupo religioso utiliza os números e a cronologia bíblica com uma obcecada minúcia nas suas previsões de datas proféticas. Para além disso, estendem o alcance das “profecias” de Daniel até ao tempo de Jesus e... até aos nossos dias:
-          afirmam que Daniel tinha previsto a data da apresentação Jesus ao público (o baptismo) e a sua morte;
-          segundo as profecias de Daniel, Jesus já começou a reinar no céu desde 1914 EC (a explicação para o eclodir da Guerra Mundial nesse ano é inspirada no Apocalipse, onde está escrito que haveria uma batalha no céu e Satanás seria empurrado para a Terra causando grandes problemas aos homens);