sábado, 15 de abril de 2017

Século I - Profetas, Messias, Bandidos e Loucos





Os Marginais

Flávio Josefo, historiador do século I, refere uma boa quantidade de personagens marginais perseguidas pelas autoridades - quer salteadores, líderes revolucionários, profetas e pretensos messias.

Segundo o relato de Josefo parece que, no primeiro século, até à destruição do Templo, surgiu um certo número de Messias prometendo alívio do jugo romano e prontamente encontrando seguidores. Ele refere-se assim (depois do relato sobre os sicários violentos e sanguinários):
"...surgiu outro grupo de vilões, de mãos mais limpas mas de intenções mais ímpias, e que arruinaram a paz na cidade não menos do que os assassinos [os sicarii]. Burlões e impostores, promovendo mudanças revolucionárias sob o pretexto da inspiração divina, convenceram as gentes a agirem como loucas e conduziram-nas para o deserto convencidas de que Deus aí lhes mostraria sinais de libertação" (Guerra dos Judeus II.13.4; Antiguidades Judaicas XX.8.6).

Alguns líderes sectários ou marginais do século I referidos por Flávio Josefo:

-       6 EC - Judas Galileu (ou de Gamala, nos montes Golã) liderou uma revolta quando a Judeia e Samaria passaram a ser governadas directamente por Roma; o novo governador Coponius, sob o procurador Quirinius, impôs novas taxas gerando a revolta; Josefo associa este nome à filosofia ultra-nacionalista dos zelotas (Antiguidades Judaicas XVIII.1.1).

-       35 EC - João Baptista, líder religioso e alegado profeta, considerado Messias pelos seus seguidores; morto por Herodes Antipas; é dos poucos lideres sectários elogiados por Josefo (Antiguidades Judaicas XVIII.5.2).

-       36 EC - "O Samaritano", imitando Josué (Josué 8:33), reuniu uma multidão de samaritanos para subirem ao monte Gerizim, considerada a mais sagrada das montanhas; assegurou-lhes que lá lhes mostraria relíquias sagradas ali depositadas; a multidão, crendo nele, reuniu-se, com armas, numa aldeia na base da montanha; enquanto se preparavam para a escalada, o número de adeptos foi crescendo rapidamente, parecendo a preparação de uma revolta armada; mas antes que pudessem ascender, Pilatos interceptou-os e aprisionou alguns e matou outros (Antiguidades Judaicas XVIII.4.1).

-       44 EC - Teudas, alegado profeta que exortou o povo a segui-lo com seus pertences ao Jordão; prometeu que abriria caminho no rio secando-o, imitando Josué (Josué 3:14-16); o governador Cuspius Fadus enviou uma tropa de cavaleiros em busca dele e seu bando, matou muitos deles, e tomou outros cativos, decapitando Teudas (Antiguidades Judaicas XX.5.1).

-       52 EC - Eleazar, salteador que actuou na Judeia durante vinte anos, desde a década de 30 EC, foi capturado por Antónius Félix (Guerra dos Judeus II.13.3).

-       55 EC - "O Egípcio", alegado profeta que reuniu 30.000 adeptos, convocando-os para o Monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, prometendo que, a seu comando (imitando Josué em Jericó, Josué 6:20), os muros de Jerusalém cairiam e que ele e seus seguidores se apoderariam da cidade; o governador Antónius Félix, confrontou militarmente esta multidão; o profeta escapou, mas os que estavam com ele foram mortos ou capturados, e a multidão dispersou (Antiguidades Judaicas XX.8.6; Guerra dos Judeus II.13.5).

-       60 EC - Um outro "profeta libertador", do qual Josefo não diz o nome, prometeu ao povo "independência e alívio das suas misérias" se o seguissem até o deserto; tanto o líder quanto os seguidores foram mortos pelas tropas do governador Festus (Antiguidades Judaicas XX.8.10).

-       62 EC - Jesus ben Ananias, profetizou a destruição de Jerusalém; foi açoitado por Albinus mas libertado por ser considerado um louco inofensivo (Guerra dos Judeus VI.5.3).

-       66 EC - Menahem ben Judas, filho de Judas Galileu; ao contrário dos que prometiam que a libertação fosse alcançada por intervenção divina, Menahem era um guerreiro; quando a guerra eclodiu, ele atacou a fortaleza Massada com a sua hoste e armou os seus seguidores com as armas lá armazenadas, seguindo para Jerusalem, onde capturou a fortaleza Antónia; encorajado pelo sucesso, comportou-se como um rei e reivindicou a liderança das tropas de todas as facções envolvidas na guerra contra os romanos (Guerra dos Judeus II.17.9); a revolta dos judeus foi confrontada pelos romanos comandados por Vespasiano e Tito.

-       70 EC - mesmo quando Jerusalém já estava em processo de destruição pelos romanos, um profeta anunciou ao povo que Deus lhes ordenou que viessem ao Templo, para ali receber sinais milagrosos de sua libertação; aqueles que vieram encontraram a morte nas chamas quando os romanos incendiaram o Templo (Guerra dos Judeus VI.5.2).



Mas, no fim de contas, Josefo refere que Vespasiano, general e Imperador Romano, era o verdadeiro Messias (Guerra dos Judeus VI.5.4).

O título "Messias" (em grego, "Cristo") estava reservado a alguém que conseguisse demonstrar poder militar e administrativo e, simultaneamente, fosse reconhecido pelo poder religioso. Os judeus reconheceram, no século VI a.C., Ciro da Pérsia como sendo um Cristo.
Na literatura judaica, o Cristo idealizado seria não só rei como também sumo-sacerdote.


Referências:
 - http://penelope.uchicago.edu/josephus/war-6.html
 - http://penelope.uchicago.edu/josephus/ant-18.html



E... sobre Jesus Nazareno...?

E sobre Jesus Nazareno, o que disse Josefo? Existem apenas uns parágrafos muito duvidosos nas suas obras...



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Século I - Evangelho de Pedro




O Evangelho de Pedro, ou Evangelho segundo Pedro, é um dos evangelhos não-canónicos rejeitados como apócrifos pelos que estabeleceram o cânon do Novo Testamento.

Foi descoberto em 1886 por um arqueólogo francês no Egipto, em Akhmim (100 km a norte de Nag Hammadi). Um fragmento de um manuscrito do século VIII ou IX, que fora enterrado com um monge egípcio, foi identificado como pertencente a uma cópia do evangelho de Pedro, um texto ainda mais antigo. Foi o primeiro evangelho não-canónico a ser redescoberto, preservado na areia seca do Egipto.

O fragmento encontrado contém uma sequência da narrativa da Paixão, da Ressureição e da Ascensão de Cristo. É provável que o texto original completo tivesse mais conteúdo.

A parte inicial do texto estará perdida. Assim, a Paixão começa abruptamente com o julgamento de Jesus diante de Pilatos, depois de Pilatos lavar as mãos, e fecha com sua versão incomum e detalhada da vigília colocada sobre o túmulo e a ressurreição. O Evangelho de Pedro é mais detalhado na narrativa após a Crucificação do que qualquer dos evangelhos canónicos, e difere dos relatos canónicos em numerosos detalhes:
 - Herodes dá a ordem para a execução - não Pilatos, que é exonerado;
 - José (de Arimatéia?) conhecia Pilatos;
 - na escuridão sobrenatural que acompanhou a crucificação, "muitos andavam com tochas, supondo que era noite e caíram".
 - o narrador não é anónimo mas escreve algumas frases na primeira pessoa e identifica-se com o nome Simão Pedro;
 - o narrador e outros discípulos esconderam-se porque eram procurados sob suspeita de conspirar para incendiar o templo;
 - o centurião que vigiava o túmulo tem nome: Petrónio;
 - os detalhes do selamento do túmulo, solicitado por Pilatos aos anciãos da comunidade judaica, são muito mais elaborados do que em Mateus 27:66.

O texto é incomum ao descrever a própria cruz como objecto falante, e até flutuando fora do túmulo. No túmulo de Jesus - que tinha sido selado e estava vigiado por uma patrulha - aparecem dois homens tão altos que as suas cabeças chegavam aos céus e que conduziam um terceiro homem tão alto que sua cabeça ultrapassava os céus.

O texto segue, então, a mesma trajectória que o Evangelho de Marcos, terminando no respectivo final curto (onde as mulheres fogem do túmulo vazio com medo).


Tom docético

Mais importante ainda, a Ressurreição e a Ascensão, que são descritas em detalhe, não são tratadas como eventos separados, mas ocorrem no mesmo dia.

Além disso, este evangelho nega a morte de Jesus na cruz, o que contradiz a crença do cristianismo corrente, mas tem semelhanças com o Docetismo.

O grito de Cristo da cruz, em Marcos dado como "Eli, Eli, lama sabachthani?", explicado como significando "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?", é relatado em Pedro como "Minha força, minha força, tu me abandonaste!".

Imediatamente depois, o narrador afirma que "quando ele disse isso, foi tomado para cima", sugerindo que Jesus não morreu mas foi transferido para o céu sem morrer. Isto, juntamente com a afirmação de que Jesus "permaneceu silencioso na cruz, como se não sentisse dor", leva a caracterizar este evangelho como explicitamente docético.

O docetismo é amplamente definido como qualquer ensinamento que afirma que o corpo de Jesus era ausente ou ilusório.

Na terminologia cristã, docetismo (gr. dokein (parecer) / dókēsis (aparição, fantasma)), pode ser definido como a doutrina segundo a qual o fenómeno de Cristo, sua existência histórica e corporal, e, portanto, acima de tudo, a forma humana de Jesus, era totalmente mera aparência, sem qualquer verdadeira realidade.

A Igreja Católica combateu o docetismo, porque preferiu a versão de que Jesus surgiu como uma criança humana nascida de uma mulher virgem tendo se tornado, em adulto, um pregador famoso na Galiléia. Jesus, portanto, sofrera e morrera na cruz tal como qualquer outro humano que fosse crucificado.



Autoria

Ao contrário dos evangelhos canónicos, que são textos de autoria anónima, o Evangelho de Pedro alega explicitamente ser a obra do Apóstolo Pedro:

"E eu, com os meus companheiros, ficámos entristecidos e, sendo feridos em mente, nos escondemos".
"Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, pegámos nossas redes e fomos para o mar."

Entretanto, existe concordância em que o evangelho de Pedro é pseudepigráfico (texto ao qual é atribuído falsa autoria).

A verdadeira autoria deste evangelho permanece um mistério - tal como a autoria de todos os evangelhos, incluindo os do Novo Testamento (os canónicos). O texto encontra paralelos com os evangelhos canónicos.


Data

É provável que o Evangelho Segundo Pedro seja posterior à composição dos quatro evangelhos canónicos. Pode remontar ao fim do século I ou ao início do século II.

O texto "Segunda Epístola de Clemente" (escrito entre 95 a 140 EC) refere-se a uma passagem que se pensa ser do Evangelho de Pedro (porque o autor cita algo que não se encontra em nenhuma passagem dos evangelhos canónicos):
2 Clem 5: 2-4 Porque o Senhor disse: Serás como cordeiros no meio dos lobos. Respondeu-lhe Pedro, e disse-lhe: E se os lobos rasgarem os cordeiros? Disse Jesus a Pedro: Não deixeis os cordeiros temerem os lobos depois de morrerem; E também vós, não temais os que vos matam e não podem fazer-vos coisa alguma; Mas temei-lhe que, depois de morto, tenha poder sobre a alma eo corpo, para lançá-los na Gehenna do fogo.


Também existe uma tradição preservada pelo historiador Eusébio (História da Igreja 6.12.2-6; 6.13.1a) de que existiu um evangelho que circulou sob o nome de Pedro, o qual foi condenado pelo Bispo Serapião de Antioquia numa inspecção à comunidade cristã de Rhossus (hoje Arsuz, no sul da Turquia) por volta de 190 EC.
Eusébio, História da Igreja, Livro 6.XII.2-6; 6.13.1a  
[De Serapion e das obras que dele se conservam]

Quanto ao fruto do afã literário de Serapion, ... e outro tratado que compôs acerca do chamado "Evangelho de Pedro"; escreveu-o refutando as falsidades que neste se dizem, por causa de alguns da igreja de Rhossus que, com o pretexto da dita Escritura, haviam-se desviado para ensinamentos heterodoxos. Será bom oferecer deste livro algumas sentenças nas quais apresenta sua opinião sobre aquele livro; escreve assim:
"Porque também nós, irmãos, aceitamos Pedro e os demais apóstolos como a Cristo, mas como homens de experiência que somos, rechaçamos os falsos escritos que levam seus nomes, pois sabemos que não nos transmitiram semelhantes escritos.
Porque eu mesmo, achando-me entre vós, supunha que todos vos ativésseis à fé reta, e sem ter lido o Evangelho que eles me apresentavam com o nome de Pedro, disse: 'se é apenas isto que parece preocupar-vos, que se leia'. Mas agora que me inteirei, pelo que me disseram, de que seu pensamento se ocultava em certa heresia, terei pressa para estar novamente entre vós; de maneira que, irmãos, esperai-me em breve.
Quanto a nós, irmãos, compreendemos a que heresia pertencia Marciano, o qual se contradizia e não sabia o que falava (isto aprendereis pelo que vos escrevi).
Efetivamente, graças a outros que praticaram este mesmo Evangelho, ou seja, graças aos sucessores dos que o iniciaram, aos quais chamaremos docetas (porque a maior parte de seu pensamento pertence a este ensino), por terem-no emprestado eles, pudemos lê-lo cuidadosamente, e achamos a maior parte conforme a reta doutrina do Salvador, mas também algumas coisas que se distinguem e que vos submetemos." 
Isto sobre Serapion.

Orígenes, por volta de 253 EC, ao comentar sobre Mateus 13:55-56, disse que o "Evangelho de Pedro", juntamente com o "Livro de Tiago", foi a fonte da doutrina da Igreja Católica sobre a virgindade perpétua de Maria:
Orígenes, Comentário sobre Mateus, Livro X, 17 
E, depreciando tudo o que parecia serem seus parentes mais próximos, eles disseram: "Sua mãe não se chama Maria? E seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs, não estão todas connosco?"
 Eles pensaram, então, que Ele era o filho de José e Maria. Mas alguns dizem, baseando-se numa tradição do Evangelho segundo Pedro, como é intitulado, ou "O Livro de Tiago", que os irmãos de Jesus eram filhos de José por uma ex-esposa, com quem ele se casou antes de Maria. Agora, aqueles que o dizem desejam preservar a honra de Maria na virgindade até o fim, de modo que aquele corpo dela que foi nomeado para ministrar a Palavra, pelo que foi dito: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra", talvez não conhecesse relações sexuais com um homem depois que o Espírito Santo entrou nela e o poder do Altíssimo a cobriu.


Texto do fragmento identificado como Evangelho de Pedro

[Condenação e escárnio de Jesus] 
Mas dos judeus nenhum lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Uma vez que se recusaram a lavar as mãos, Pilatos levantou-se. Mandou, então, o rei Herodes que o Senhor fosse levado, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”. 
Encontrava-se ali José, amigo de Pilatos e do Senhor. Quando soube que o crucificariam, dirigiu-se a Pilatos e lhe pediu o corpo do Senhor para ser sepultado. Pilatos, de sua parte, o mandou a Herodes para que lhe pedisse o corpo. Disse Herodes: “Irmão Pilatos, ainda que ninguém o tivesse pedido, nós o teríamos sepultado, pois se aproxima o Sabbath. E está escrito na lei: ‘Não se ponha o sol sobre o supliciado’”. 
E o entregou ao povo no dia antes dos Pães Ázimos, a festa deles. Apoderando-se do Senhor, eles o empurravam e diziam: “Arrastemos o filho de Deus, pois finalmente caiu em nossas mãos”. Vestiram-no com um manto de púrpura, fizeram-no sentar-se numa cadeira do tribunal, dizendo: “Julga com justiça, ó rei de Israel!” Um deles trouxe uma coroa de espinhos e a colocou na cabeça do Senhor. Outros que ali se encontravam e cuspiram-lhe no rosto; outros lhe batiam nas faces, outros o fustigavam com uma vara; alguns o flagelavam, dizendo: “Esta é a honra que prestamos ao Filho de Deus”.
Levaram para lá dois malfeitores e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele se calava como se não sentisse qualquer dor. Quando ergueram a cruz, escreveram no alto: “Este é o rei de Israel”. Colocaram as vestes diante dele, dividiam-nas e lançaram sortes sobre elas. Mas um dos malfeitores o repreendeu, dizendo: “Nós sofremos assim por causa de ações más que praticamos. Este, porém, que se tornou salvador dos homens, que mal vos fez?” Indignados contra ele, ordenaram que não lhe fossem quebradas as pernas e assim morresse entre os tormentos. 
Era meio-dia, quando as trevas cobriram toda a Judéia. Eles se agitavam e se angustiavam, supondo que o sol já se tivesse posto, pois ele ainda estava vivo. E está escrito para eles: “Não se ponha o sol sobre o supliciado”. E um deles disse: “Dai-lhe de beber fel com vinagre”. Fizeram um mistura e lhe deram para beber. E cumpriram tudo, enchendo desse modo a medida de seus pecados sobre suas cabeças. Muitos andavam com tochas e, pensando que fosse noite, retiraram-se para repousar [ou cairam ao chão]. E o Senhor gritou, dizendo: “Minha força, minha força, tu me abandonaste!” Enquanto assim falava, foi tomado para cima. 
Na mesma hora o véu do templo de Jerusalém se rasgou em duas partes. Tiraram os pregos das mãos do Senhor e o depuseram no chão. Tremeu toda a terra e houve grande medo. Brilhou, então, o sol e reconheceram que era a nona hora (três horas da tarde). Alegraram-se os judeus e deram seu corpo a José para que o sepultasse. José tinha visto todo o bem quem Jesus fizera. Tomando o Senhor, levou-o, envolvendo-o em um lençol e o depositou em seu próprio sepulcro, chamado Jardim de José. 
Os judeus, os anciãos e os sacerdotes compreenderam, então, o grande mal que tinham feito a si mesmos e começaram a lamentar-se, dizendo:
 - "Ai de nós, por causa de nossos pecados! O juízo e fim de Jerusalém estão agora próximos!".
 Eu e meus companheiros estávamos tristes; de ânimo abatido nos escondíamos. Estávamos sendo procurados por eles como malfeitores e como aqueles que queriam incendiar o templo.
 Por causa de tudo isto, jejuámos e nos assentámos, lamentando-nos e chorando noite e dia, até o Sabbath. 
[A guarda do sepulcro]
 Os escribas, os fariseus e os anciãos se reuniram, pois ficaram sabendo que todo o povo murmurava e se lamentava, batendo no peito e dizendo:
 - “Se por ocasião de sua morte se realizaram sinais tão grandes, vede quanto ele era justo!”
 Tiveram medo e foram a Pilatos, pedindo-lhe:
 - “Dá-nos soldados para que seu túmulo seja vigiado por três dias. Que não aconteça que seus discípulos venham roubá-lo e o povo acredite que ele tenha ressuscitado dos mortos e nos faça mal”.
 Pilatos deu-lhes o centurião Petrónio com soldados para vigiar o sepulcro. Com eles dirigiram-se ao túmulo os anciãos e os escribas e todos os que ali estavam com o centurião. Os soldados rolaram uma grande pedra e a colocaram na entrada do túmulo. Nela imprimiram sete selos. Depois ergueram ali uma tenda e montaram guarda.
 Pela manhã, ao despontar do sábado, veio de Jerusalém e das vizinhanças uma multidão para ver o túmulo selado. 
[Ressurreição de Jesus]
 Mas durante a noite que precedeu o dia do Senhor, enquanto os soldados montavam guarda, por turno, dois a dois, ressoou no céu uma voz forte e viram abrir-se os céus e descer de lá dois homens, com grande esplendor, e aproximar-se do túmulo. A pedra que fora colocada em frente à porta rolou donde estava e se pôs de lado. Abriu-se o sepulcro e nele entraram os dois jovens. À vista disto, os soldados foram acordar o centurião e os anciãos, pois também estes estavam de guarda. E enquanto lhes contavam tudo o que tinham presenciado, viram também sair três homens do sepulcro: dois deles amparavam o terceiro e eram seguidos por uma cruz. A cabeça dos dois homens atingia o céu, enquanto a daquele que conduziam pela mão ultrapassava os céus. Ouviram do céu uma voz que dizia:
 - “Pregaste aos que dormem?”
 E da cruz se ouviu a resposta:
 - “Sim”. 
 Eles, então, deliberaram em conjunto ir relatar essas coisas a Pilatos. Enquanto ainda conversavam, abriram-se novamente os céus. Um homem desceu e entrou no túmulo. Vendo aquilo, o centurião e os que estavam com ele apressaram-se, sendo ainda noite, a procurar Pilatos, deixando o sepulcro que tinham vigiado. Extremamente abalados, expuseram tudo o que tinham visto e disseram: “Era verdadeiramente Filho de Deus”.
 Pilatos respondeu:
 - “Sou inocente do sangue do Filho de Deus, fostes vós que decidistes assim”.
 Depois todos se aproximaram, pedindo e suplicando que ordenasse ao centurião e aos soldados não contar a ninguém o que tinham visto.
 - “Para nós, diziam, é melhor ser culpado de gravíssimo pecado diante de Deus, do que cair nas mãos do povo judeu e ser lapidados”.
 Pilatos, então ordenou ao centurião e aos soldados que nada dissessem. 
[As mulheres e o sepulcro]
 Ao amanhecer do dia do Senhor, Maria Madalena, discípula do Senhor, que, por medo dos judeus ardentes de cólera, não havia feito na sepultura do Senhor tudo quanto as mulheres costumavam fazer pelos mortos que lhes eram caros, tomou consigo as amigas e dirigiu-se ao túmulo onde tinha sido posto. Elas temiam ser vistas pelos judeus e diziam:
 - “Se, no dia em que foi crucificado, não pudemos chorar e lamentar-nos, façamo-lo pelo menos agora seu túmulo. Quem, no entanto, nos há de revolver a pedra colocada na entrada do sepulcro, a fim de que possamos entrar, sentar-nos em volta dele cumprir o que lhe é devido? A pedra é grande e tememos que alguém nos veja. Se não o pudermos fazer, deponhamos, pelo menos, na porta o que trouxemos em sua memória. Choraremos e nos lamentaremos até a hora de voltarmos para casa”.
 Mas quando chegaram, encontraram o sepulcro aberto. Aproximando-se, inclinaram-se e viram ali um jovem sentado no meio do sepulcro. Era belo e estavam revestido de túnica de raro resplendor.
 Perguntaram-lhe:
  - “Por que viestes? A quem procurais? Por acaso, aquele que foi crucificado? Ressuscitou e foi-se embora. Se não o acreditais, inclinai-vos e olhai o lugar onde jazia. Não está mais. Ressuscitou, na verdade, e voltou para o lugar donde veio”.
 Então as mulheres fugiram assustadas. 
[Conclusão]
 Ora, era o último dia dos Pães Ázimos, e muitos saíam da cidade e voltavam para suas casas, à medida que a festa terminava. Nós, porém, os doze apóstolos do Senhor, chorávamos e nos entristecíamos. Depois, cada um, angustiado por tudo o que tinha acontecido, voltou para sua casa. Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, levámos nossas redes e fomos para o mar; e estava conosco Levi, filho de Alfeu, a quem o Senhor...



Referências:
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090004.htm
 - http://www.nazarenopaulista.com.br/estudos/Historia_Eclesiastica_Eusebio_de_Cesareia.pdf
 - http://oll.libertyfund.org/titles/coxe-ante-nicene-fathers-volume-9
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090368.htm

domingo, 26 de março de 2017

Século I - João Baptista era o Cristo





Introdução

João Baptista aparece nos evangelhos do Novo Testamento como um arauto de Cristo. A sua função é anunciar, com antecedência, a vinda de Cristo. Em Marcos e Mateus, é relatado que Jesus foi baptizado por João Baptista, mas não em Lucas e João.

Por outro lado, os evangelhos não conseguem esconder que, na verdade, João Baptista era considerado o Cristo pelos seus seguidores.
Os seguidores de João Baptista, eventualmente, ficaram decepcionados quando o seu Cristo foi preso e executado por Herodes Ântipas (governador-rei da Galiléia e Peréia) por volta de 36 ou 37 EC.

Mais tarde, os autores dos evangelhos escreveram que "ser preso e executado" é um sinal do Cristo, mas atribuiram o título de Salvador a outra personagem. Assim, elaboraram uma figura chamada Jesus Nazareno que passou a ser o Cristo.

Herodes Ântipas era casado com uma princesa da Nabateia (reino vizinho da Galiléia e da Peréia). Esse casamento dava-lhe segurança nas fronteiras do seu território. Ao repudiar a sua mulher para casar-se com outra, gerou um mal-estar político com o seu sogro, o rei Aretas da Nabateia, que declarou guerra a Ântipas.
Ora, João Baptista terá censurado publicamente o divórcio e o novo casamento de Herodes o que determinou a sua captura e execução.

Possivelmente os Nazarenos aproveitaram o conceito de um Salvador que é morto pelas autoridade humanas e criaram a narrativa de Jesus Nazareno. Jesus é descrito como vindo da Galiléia, território governado por Herodes Ântipas. João Baptista é descrito como actuando na Pereia ("para além do Jordão", na óptica de quem está na Judeia), território também governado por Herodes Ântipas. João Baptista ganhou muitos seguidores na Judeia (território cuja capital é Jerusalém) e a Jesus é atribuida uma entrada triunfal em Jerusalém.


João Baptista nos Evangelhos Sinópticos

Os primeiros três evangelhos do Novo Testamento - Mateus, Marcos e Lucas -, quando referidos em conjunto, são designados por “evangelhos sinópticos” porque os respectivos conteúdos são comparáveis entre si.

No início do seu livro, “Marcos” diz que João Baptista pregava o baptismo para o perdão dos pecados e que este baptizou Jesus.
Marcos 1:4 assim apareceu João, o Batista, no deserto, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados.
Marcos 1:9 E aconteceu naqueles dias que veio Jesus de Nazaré da Galiléia, e foi batizado por João no Jordão. 

“Mateus” não admitia ver Jesus envolvido num baptismo de perdão de pecados, pois Jesus não podia ter pecados, e por isso omitiu esta frase na sua versão:
Mateus 3:1 Naqueles dias apareceu João, o Batista, pregando no deserto da Judeia, dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.
Mateus 3:13-15 Então veio Jesus da Galiléia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele. Mas João o impedia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Jesus, porém, lhe respondeu: Consente agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele consentiu. 

Na doutrina apresentada por “Mateus”, seria um embaraço apresentar Jesus a ser baptizado por João Baptista. Mas, como constatamos que o autor relatou o episódio, é forçoso considerar que, por alguma razão, este não poderia ter sido omitido. No entanto, para minimizar o embaraço, o autor colocou a justificação “porque nos convém cumprir toda a justiça”, mas não se percebe qual o significado desta.

“Lucas” resolve este embaraço teológico, mantendo que João baptizava para o arrependimento, mas insinuando que Jesus não teria sido baptizado por João. Como? “Lucas” coloca o aprisionamento de João imediatamente antes do baptismo de Jesus (João Baptista foi preso - e depois morto - por opinar em público sobre Herodes).
Lucas 3:3 E ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão de pecados; 
Lucas 3:19-22 Mas o tetrarca Herodes, sendo repreendido por ele por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todas as maldades que havia feito, acrescentou a todas elas ainda esta, a de encerrar João no cárcere.
Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, ...

Qualquer das versões sobre o baptismo de Jesus é embaraçosa para as doutrinas cristãs porque não existe uma explicação teológica satisfatória para que Jesus tivesse de ser baptizado por João Baptista. É possível que o episódio do baptismo de Jesus Nazareno por João Baptista, já fizesse parte de uma importante doutrina anterior à escrita dos evangelhos, talvez com o objectivo de cativar os seguidores de João Baptista. Os proto-cristãos tentaram “provar” que Jesus era superior e que João Baptista esteve apenas a preparar o caminho para Jesus.

Sabe-se que, a par do desenvolvimento do cristianismo, continuaram a existir seguidores de João Baptista, durante muito tempo, que não reconheceram autoridade nos evangelhos. Por outro lado, os evangelhos nunca falam em João Baptista tornar-se um seguidor de Jesus, apesar de indicarem que aquele reconhecia que Jesus era-lhe superior. Pelo contrário, os evangelhos referem que muitos dos que viam Jesus presumiam que ele era o João Baptista ressuscitado (Marcos 6:14; 8:28; Mateus 14:1-2; 16:14; Lucas 9:7; 9:19).


Jesus é João Baptista

Segundo Marcos, as pessoas que viam Jesus pensavam que ele era João Baptista, Elias ou qualquer outro profeta antigo:
Marcos 8:27-30 ... e no caminho interrogou os discípulos, dizendo:
 - Quem dizem os homens que eu sou?
Responderam-lhe eles:
 - Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros: Algum dos profetas.
Então lhes perguntou:
 - Mas vós, quem dizeis que eu sou?
Respondendo, Pedro lhe disse:
 - Tu és o Cristo.
E ordenou-lhes Jesus que a ninguém dissessem aquilo a respeito dele.

Nesta passagem do Novo Testamento, Jesus prefere que as pessoas continuem a pensar que ele é João Baptista ou outro profeta ressuscitado, a deixá-los saber que ele é uma outra pessoa. Pedro não ajuda muito, pois simplesmente atribui-lhe um título sem o identificar como uma pessoa diferente de João Baptista.

Ou seja, Jesus não assume uma identidade própria. Jesus é uma reedição de outra pessoa, de outra identidade.


João Baptista no Evangelho de João

No Evangelho Segundo João existem mais passagens relativas a João Baptista do que nos sinópticos, mas nenhuma das passagens menciona que Jesus foi baptizado por aquele. Muitas das passagens são inconsistentes face ao relatado nos sinópticos.

Por exemplo, no seguinte texto vemos que João Baptista diz que Jesus já existia antes dele; uma informação que não se encontra nos evangelhos sinópticos:
João 1:15 João deu testemunho dele, e clamou, dizendo: Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim, passou adiante de mim; porque antes de mim ele já existia.

Em duas passagens de Mateus, Jesus diz aos discípulos que João Baptista é o profeta Elias ressuscitado (ou uma reencarnação deste). O texto de João entra em clara contradição com Mateus, ao dizer que João Baptista negou ser Elias.

Mateus
João
Mateus 11:12-14 E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto. Pois todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.
João 1:19-23 E este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? Ele, pois, confessou e não negou; sim, confessou: Eu não sou o Cristo. Ao que lhe perguntaram: Pois que? És tu Elias? Respondeu ele: Não sou. És tu o profeta? E respondeu: Não. Disseram-lhe, pois: Quem és? para podermos dar resposta aos que nos enviaram; que dizes de ti mesmo? Respondeu ele: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.
Mateus 17:10-13 Perguntaram-lhe os discípulos: Por que dizem então os escribas que é necessário que Elias venha primeiro? Respondeu ele: Na verdade Elias havia de vir e restaurar todas as coisas; digo-vos, porém, que Elias já veio, e não o reconheceram; mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às mãos deles. Então entenderam os discípulos que lhes falava a respeito de João, o Batista.


Uma outra situação curiosa relatada no Evangelho de João é aquela que indica que Jesus e João Baptista andavam a baptizar cada um por seu lado, como se fossem rivais:
João 3:22-26 Depois disto foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judeia, onde se demorou com eles e batizava. Ora, João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas; e o povo ía e se batizava. Pois João ainda não fora lançado no cárcere. Surgiu então uma contenda entre os discípulos de João e um judeu acerca da purificação. E foram ter com João e disseram-lhe: Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, eis que está batizando, e todos vão ter com ele.

Ora, se João Baptista acreditava na missão de Jesus porque é que continuou, por conta própria, a sua actividade de baptizador?

Por outro lado, nos evangelhos sinópticos parece claro que Jesus só começou a aparecer em público depois de João Baptista ser preso. Será que o autor sabia que João Baptista foi preso depois de Pilatos ter terminado o seu mandato na Judeia (36 EC)? Este dado obrigaria a colocar a vida pública de Jesus antes do aprisionamento de João Baptista.


Nada de enganos... João Baptista não é o Cristo

No Evangelho Segundo João, em duas passagens distintas, João Baptista negou ser o Cristo:
João 1:19-20 E este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? Ele, pois, confessou e não negou; sim, confessou: Eu não sou o Cristo
João 3:27-28 Respondeu João: ... Vós mesmos me sois testemunhas de que eu disse: Não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele.

Isto indica que o autor quis deixar claro que João Baptista não era o Cristo. A explicação desta preocupação do autor é que, provavelmente, existiriam muitas pessoas, entre os seus potenciais leitores, que criam que João Baptista era o Cristo. Estes crentes seriam... cristãos, mas sem Jesus Nazareno!


João Baptista segundo Flávio Josefo

Josefo menciona João Baptista com mais detalhe e de um modo que se pode considerar genuíno (quando comparado com os parágrafos forjados sobre Jesus), na seguinte passagem:

Antiguidades Judaicas, XVIII, 5, 2
Para alguns judeus a destruição do exército de Herodes pareceu intervenção divina, certamente uma punição pelo tratamento dado a João, o chamado Batista. Porque Herodes condenara-o à morte, mesmo ele tendo sido um homem bom e tendo exortado os judeus a levar uma vida correcta, praticar a justiça para com o próximo e a viver piamente diante de Deus, e fazendo por se batizar; porque a lavagem seria aceitável para ele, se o fizessem não para o perdão de pecados mas apenas para a purificação do corpo; pressupondo uma alma previamente purificada por uma conduta de rectidão. Quando outros também se juntaram à multidão em torno dele, pelo facto de que eles eram agitados ao máximo pelos seus sermões, Herodes ficou alarmado. Eloquência com tão grande efeito sobre os homens poderia levar a alguma forma de sedição. Porque dava a impressão de que eles eram liderados por João em tudo que faziam. Herodes decidiu então que seria melhor agir antes, executando João, do que arrepender-se mais tarde. Por esta suspeita de Herodes, João foi trazido acorrentado a Machaerus, a fortaleza de que falamos antes, e lá executado. Porém o veredicto dos Judeus era de que a destruição que atingiu o exército de Herodes foi um castigo, um sinal de desagrado de Deus.

Herodes Ântipas divorciou-se da filha de Aretas, rei árabe, para casar com Herodias, provocando a guerra com o país vizinho. Por outro lado aprisionou e executou João Baptista por recear que este se tornasse um forte adversário político. Josefo diz que alguns judeus achavam que a derrota militar infligida a Herodes por Aretas tinha sido um castigo divino por aquele ter executado João Baptista.

Nesta descrição não há nada de extraordinário ou de fantasioso e, por isso, podemos nos assegurar que João Baptista terá sido uma personagem histórica com uma descrição similar àquela que nos é dada pelos evangelhos. No entanto a descrição de Josefo sobre João Baptista e sobre a relação de inimizade com Herodes Antipas coincide apenas superficialmente com aquela encontrada nos evangelhos.

Josefo diz:
-          João baptizava, não para o perdão de pecados, mas para a purificação do corpo ("pressupondo uma alma previamente purificada por uma conduta de rectidão");
-          Herodes mandou encarcerar e executar João Baptista porque receava que João Baptista fosse um líder agitador que pudesse fazer-lhe frente;

Os evangelhos dizem:
-          João baptizava para o perdão dos pecados (Marcos 1:4);
-          Herodes mandou encarcerar João Baptista porque não gostou que este criticasse o seu casamento com Herodias e ordenou a sua execução por sugestão da sua nova esposa (Marcos 6:21-28);


Esta questão acerca da purificação seria uma questão central na doutrina de João Baptista, de tal modo que no Evangelho de João essa tópico é referido:
João 3:25 Surgiu então uma contenda entre os discípulos de João e um judeu acerca da purificação.


Não obstante estas diferenças subtis, podemos dizer que o relato de Josefo sobre João Baptista é genuino e coincide, em parte, com o dos evangelhos.


Mandeísmo - João Baptista é o Cristo

O mandeísmo é uma religião que pode ser classificada como gnóstica mas com a ressalva de que não consideram o mundo material como obra de um deus (demiurgo) maligno.

Existe consenso de que esta religião remonta aos três primeiros séculos da Era Comum. Pode ter tido origem na Nabateia (país vizinho da Galiléia)

Os mandeístas veneram João Baptista como o Cristo (ou como o seu último profeta) e praticam o ritual do baptismo. Existiram no Iraque, até tempos recentes, dezenas de milhares de adeptos. Muitos fugiram ao Estado Islâmico, refugiando-se em países ocidentais.

A escritura mandeísta mais importante é o Ginza Rba ("Grande Tesouro"), juntamente com o Qolastā ("Livro de Orações"). A linguagem usada por eles é o mandeu, uma subespécie do aramaico.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Século I - Justus de Tibérias desconhecia Jesus




Justus de Tibérias - nada sobre Jesus

Justus, filho de Pistus, nasceu em Tibérias (cidade também designada por Tiberíades), uma cidade altamente helenística (de cultura grega) da Galiléia, e era um homem bastante instruído. Ele era amigo íntimo do tetrarca (governante-rei) Agripa II e tornou-se um dos principais cidadãos da sua cidade natal. Justus viveu no século I e era contemporâneo de Flávio Josefo.

Durante a Primeira Guerra Judaico-Romana (66-73 d.C.), ele entrou em conflito com Josefo, que serviu como líder militar na Galiléia. Quando os romanos reconquistaram a Galiléia (67 d.C.), Justus procurou protecção junto de Agripa. Vespasiano, que liderava as tropas romanas, exigiu que Justus fosse morto, mas Agripa o poupou e simplesmente o aprisionou. O tetrarca até mesmo nomeou Justus como seu secretário, mas depois o dispensou como pouco confiável.

Justus escreveu uma história sobre a guerra em que culpou Josefo pelos problemas na Galiléia, acusando-o de traição. Ele também retratou o seu antigo protector Agripa de modo desfavorável, mas só publicou o trabalho depois da morte deste. Justus também escreveu uma crónica sobre o povo judeu desde o tempo de Moisés até ao tempo de Agripa II. Ambos os seus trabalhos só sobreviveram em fragmentos.

Flávio ​​Josefo, rival de Justus, criticou o relato deste sobre a guerra e defendeu sua própria conduta na obra "Autobiografia", de cujas passagens polémicas deriva-se a maior parte do que se pode saber sobre a vida de Justus.

Mas a referência mais interessante sobre Justus foi aquela deixada pelo patriarca Photius de Constantinopla do século IX. Este líder da igreja oriental teve acesso à obra completa de Justus e deixou registado o seu desagrado por este autor não ter relatado nada sobre Jesus.


Photius de Constantinopla

Photius I de Constantinopla (820-893 d.C.) foi o patriarca de Constantinopla entre 858 e 867 e, novamente, entre 877 e 886. Ele é reconhecido pela Igreja Ortodoxa como São Fócio, o Grande.

Photius é considerado o mais poderoso e influente patriarca de Constantinopla desde João Crisóstomo e como o mais importante intelectual de seu tempo.

O mais importante dos trabalhos de Photius é a sua famosa Bibliotheca ou Myriobiblon, uma colecção de extractos e resumos de 280 volumes de autores clássicos (geralmente citados como Códices), cujos originais estão agora em grande parte perdidos. O trabalho é especialmente rico em citações de historiadores.

Photius citou a obra de Justus de Tibérias, realçando que, estranhamente, Justus não escreveu nada sobre Jesus Cristo! O patriarca acrescenta que esse seria o comportamento expectável de Justus porque... ele era judeu!
Vejamos o que Photius registou:
Photius sobre Justus em Bibliotheca 
XXIII. Leitura da Crónica de Justus de Tibérias, intitulada "Uma Crónica dos Reis dos Judeus na forma de uma genealogia, por Justus de Tibérias". Ele veio de Tibérias, na Galiléia, da qual tomou seu nome. Ele começa sua história com Moisés e leva-o até a morte do sétimo Agripa da família de Herodes e o último dos Reis dos Judeus. Seu reino, que lhe foi concedido por Cláudio, foi estendido por Nero, e ainda mais por Vespasiano. Ele morreu no terceiro ano de Trajano, quando a sua história termina. O estilo de Justus é muito conciso mas omite uma parte que é de extrema importância. Sofrendo da culpa comum dos judeus, a qual raça pertence, nem menciona a vinda de Cristo, os eventos de sua vida, nem os milagres realizados por Ele. Seu pai era um judeu chamado Pistus; O próprio Justus, segundo Josefo, era um dos homens mais rebeldes, um escravo do vício e da ganância. Ele era um adversário político de Josefo, contra quem se diz ter inventado várias calúnias; Mas Josefo, embora em várias ocasiões tivesse seu inimigo em seu poder, apenas o castigou com palavras e o deixou ir livre. Diz-se que a história que ele escreveu é em grande parte fictícia, especialmente onde ele descreve a guerra judaico-romana e a captura de Jerusalém.


Considerações Finais

Justus de Tibérias é apenas mais um autor do século I que desconhecia Jesus. Ele era do século I, da Galiléia - Jesus também era alegadamente do século I, da Galiléia e é descrito nos evangelhos como uma pessoa famosa.
Justus escreveu uma obra extensa sobre a história do seu tempo, mas não registou nada sobre Jesus.

Outros autores que deveriam ter escrito sobre Jesus, se Jesus tivesse existido:
 - Flávio Josefo
 - Filo de Alexandria

Artigos relacionados:
 - Século I - Reconstruindo a História
 - Século I - Quem era o Jesus do ano 62?
 - Século II - Tácito, Suetónio e Plínio o Jovem

Referências:
 - https://en.wikipedia.org/wiki/Photios_I_of_Constantinople
 - https://en.wikipedia.org/wiki/Justus_of_Tiberias
 - http://www.tertullian.org/rpearse/justus.htm
 - http://sacred-texts.com/jud/josephus/autobiog.htm


domingo, 15 de janeiro de 2017

Ciro da Pérsia - Os Direitos das Nações





Ciro II da Pérsia, conhecido como Ciro o Grande, foi o fundador do império Aqueménida. Sob seu governo, este império envolveu todos os anteriores estados civilizados do antigo Médio-Oriente. Seus títulos régios eram Grande Rei, Rei da Pérsia, Rei de Anshan, Rei dos Médios, Rei da Babilónia, Rei da Suméria e Acádia, e Rei dos Quatro Cantos do Mundo.

Ciro construiu o seu império conquistando primeiramente o império Médio, depois o império Lídio e o império Neo-Babilónico, entre outros territórios. Quando entrou na Babilónia, o rei Nabonido entregou-se com pouca resistência.

Ciro declarou querer respeitar os costumes e as religiões das terras que conquistou. Os seus domínios transformaram-se num modelo muito bem sucedido de administração centralizada com um governo a zelar pelos interesses dos seus súbditos.

A administração do império através de governadores (sátrapas) com um governo central foram as obras principais de Ciro. Os impérios anteriores eram apenas impérios de tributação - os imperadores actuavam como suseranos que cobravam tributo aos reis das nações conquistadas, em troca de paz ou protecção.

Cilindro de Ciro

O Cilindro de Ciro, um documento sob a forma de um cilindro de argila inscrito em acádio cuneiforme, proclama Ciro como legítimo rei da Babilónia. É uma das poucas fontes sobreviventes de informações que podem ser datadas directamente ao tempo de Ciro. Este objecto havia sido colocado nas fundações do templo de Marduk na Babilónia (Esagila) após a conquista persa em 539 a.C.. Era costume, na construção de edificações, enterrar-se objectos cerimoniais nas respectivas fundações, alguns desses objectos contendo inscrições, como amuletos de boa-sorte para o edifício. Foi descoberto em 1879 e é mantido actualmente no Museu Britânico, em Londres.

O texto do cilindro denuncia o rei babilónico deposto, Nabonido, como ímpio e retrata Ciro como escolhido pelo deus principal da Babilónia, Marduk. Descreve como Ciro melhorou a vida dos cidadãos da Babilónia, repatriou povos deslocados e restaurou templos e santuários de culto das religiões locais de cada território. Apesar de a sua devoção de origem ser o deus Ahura Mazda (Zoroastrismo), Ciro revela não querer interferir com as religiões de cada povo.

Na década de 1970, o Xá (rei) do Irão, Reza Pahlavi, adoptou o Cilindro de Ciro como um símbolo político, usando-o "como imagem central na comemoração de 2500 anos de monarquia iraniana". Identificou a famosa proclamação inscrita no Cilindro de Ciro como a mais antiga declaração conhecida de direitos humanos, e o Cilindro desde então tem sido popularizado como tal. Essa visão tem sido criticada por alguns historiadores como um mal-entendido da natureza genérica deste documento como uma declaração tradicional que os novos monarcas fazem no início de seu reinado. O cilindro, no entanto, tornou-se parte da identidade cultural do Irão.

As Nações Unidas declararam, em 1971, a relíquia como sendo uma declaração antiga dos direitos humanos. O Museu Britânico descreve o cilindro como "um instrumento de propaganda da Mesopotâmia antiga", que "reflecte uma longa tradição na Mesopotâmia, onde, já desde o terceiro milénio a.C., os reis começaram seus reinados com declarações de reformas." O cilindro enfatiza a continuidade de Ciro com os governantes babilónicos anteriores, afirmando sua virtude como um rei babilónico tradicional, enquanto denegrindo seu antecessor, Nabonido.


Isaías

Na sua famosa declaração do Cilindro, Ciro apresenta-se como o novo rei da Babilónia a mando de Marduk, o Deus da Babilónia. Também apresenta-se como rei da Pérsia com a ajuda do Deus Ahura Mazda.

Da mesma forma, Ciro deve ter-se apresentado aos judeus como novo rei dos Judeus a mando de Yahveh. Não foi encontrado nenhum documento directamente ligado a Ciro que ateste isto, mas o livro de Isaías deixa passar esta ideia:
Isaías 44:28 
[Eu sou Yahveh... o] que diz de Ciro: É meu pastor e cumprirá tudo o que me apraz; dizendo também a Jerusalém: Sê edificada; e ao templo: Funda-te. 
Isaías 45:1 
Assim diz Yahveh ao seu ungido (gr. Christos), a Ciro, a quem tomo pela sua mão direita, para abater as nações diante de sua face; eu soltarei os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão.

Na versão grega de Isaias 45:1, Ciro é referido como o Cristo de Yahveh.


Tradução do Cilindro de Ciro

Cilindro de Ciro
Quando ... dos quatro quadrantes […] um incompetente [Nabonido] foi instalado para exercer o poder sobre seu país ... impôs sobre eles uma contrafacção de Esagila [templo de Marduk] ele fez ... para Ur e o resto dos centros de culto, com um ritual que era impróprio para eles, uma [profana] exibição de oferendas ... sem medo que recitava diariamente. Irreverentemente, ele pôs fim às oferendas regulares e interferiu nos centros de culto; ... estabelecido nos centros sagrados. 
Por seu próprio objectivo, ele acabou com a adoração de Marduk, o rei dos deuses, e continuamente hostilizou a cidade de Marduk e impôs trabalho forçado a seus habitantes, implacavelmente, arruinando-os todos. 
Ao ouvir seus lamentos, o senhor dos deuses ficou furiosamente irado e abandonou suas fronteiras. Os deuses que viviam entre eles abandonaram as suas habitações, irados que ele [Nabonido] os trouxera para Babilónia. 
Marduk, maior entre os deuses, dirigiu-se para todas as habitações que foram abandonadas e todas as pessoas da Suméria e Acádia, que eram como cadáveres. Ele foi reconciliador e teve misericórdia deles. Examinou e verificou a totalidade das terras, todas elas. Ele procurou por toda parte e então tomou um rei justo, seu favorito, pela mão, ele chamou seu nome: Ciro, rei de Anshan. Ele pronunciou seu nome para ser rei em todo o mundo.
Ele fez a terra de Gutium e todos os Umman-manda [Medos] se curvaram em submissão aos seus pés. E ele [Ciro] guiou com justiça e rectidão todo o povo de cabeça negra, sobre quem ele [Marduk] lhe tinha dado a vitória. Marduk, o grande senhor, guardião do seu povo, olhava com alegria as suas boas obras e o seu coração justo.
Ele ordenou que fosse para a cidade de Babilónia. Ele o colocou na estrada para Babilónia e como um companheiro e um amigo, ele foi ao seu lado.
Seu vasto exército, cujo número, como a água do rio, não pode ser conhecido, marchou ao seu lado totalmente armado. 
Ele o fez entrar na sua cidade Babilónia sem luta ou batalha. Ele livrou Babilónia de dificuldades. Ele entregou Nabonido, o rei que não o venerou, nas suas mãos.
Todo o povo de Babilónia, toda a terra da Suméria e Acádia, príncipes e governadores, curvaram-se diante dele e beijaram-lhe os pés. Eles se alegraram com sua realeza e seus rostos brilhavam.
O Senhor, por cuja ajuda os mortos foram ressuscitados e que todos foram redimidos de dificuldades, cumprimentaram-no com alegria e louvaram o seu nome.
Eu sou Ciro (Kouresh), rei do mundo, grande rei, rei poderoso, rei de Babilónia, rei da Suméria e Acádia, rei dos quatro quadrantes. Sou filho de Cambises (Camboujiyah), grande rei, rei de Anshan, neto de Ciro, grande rei, rei de Anshan, descendente de Teispes (Chaish-Pesh), grande rei, rei de Anshan, de uma eterna linha real, cuja governação Bel e Nabu prezam, cuja realeza eles desejam para o deleite de seus corações.
Quando entrei pacificamente na Babilónia, estabeleci dominação no palácio real entre alegria e júbilo. Marduk o grande senhor, moveu para mim o nobre coração dos habitantes de Babilónia, enquanto eu dava atenção diária à sua adoração.
Eu não permiti que atemorizassem as pessoas da Suméria e Acádia.
Busquei o bem-estar de Babilónia e de todas as suas cidades, centros sagrados. Quanto aos cidadãos da Babilónia, sobre os quais ele [Nabonido] impôs jugo vergonhoso, eu os aliviei e levantei suas habitações da ruina. 
Marduk, o grande senhor, alegrou-se pelas minhas boas acções. Ele enviou graça sobre mim, Ciro, o rei que o adora, e sobre Cambises, meu filho, minha prole, e sobre todo o meu exército, e em paz, diante dele, nos movemos em amizade. Por sua palavra glorificada, todos os reis que se sentam em tronos em todo o mundo, desde o Mar Superior até o Mar Baixo, que vivem nos distritos distantes, os reis do Ocidente, que habitam em tendas, todos eles, trouxeram o seu pesado tributo diante de mim e, na Babilónia, eles beijaram meus pés. De Babilónia a Ashur e de Susa, Agade, Eshnunna, Zamban, Meturnu, Der, até a região do Gutium, os centros sagrados do outro lado do Tigre, cujos santuários haviam sido abandonados por muito tempo. 
Eu devolvi as imagens dos deuses, que tinham residido lá Babilónia, para seus lugares e eu os deixei habitar em moradas eternas. Reuni todos os seus habitantes e lhes devolvi as suas habitações.
Além disso, ao comando de Marduk, o grande senhor, estabeleci os deuses em suas habitações, em agradáveis moradas, os deuses da Suméria e Acádia, que Nabonido, para a ira do senhor dos deuses, tinha trazido para Babilónia.
Que todos os deuses, que eu estabeleci em seus centros sagrados, rezem diariamente a Bel e Nabu para que os meus dias sejam longos e que eles intercedam pelo meu bem-estar. Que eles digam a Marduk, meu senhor: "O rei Ciro e Cambises, seu filho, adoram-te". 
O povo de Babilónia abençoou minha realeza, e eu tornei todas as terras em moradas pacíficas [...] para a eternidade. 
Agora que eu coloquei na cabeça a coroa do reino da Pérsia, Babilónia e das nações dos quatro quadrantes, com a ajuda de (Ahura) Mazda, eu anuncio que vou respeitar as tradições, costumes e religiões das nações do meu império e nunca deixarei que nenhum de meus governadores e subordinados os inferiorize ou os insulte enquanto eu estiver vivo.  
De agora em diante, enquanto (Ahura) Mazda conceder-me o favor do reino, não vou impor a minha monarquia a nenhuma nação. Cada um é livre para aceitá-lo, e se qualquer um deles rejeitar, eu nunca resolverei com a guerra para reinar. Enquanto eu for o rei da Pérsia, Babilónia e as nações dos quatro quadrantes, nunca deixarei que ninguém oprima outros, e se isso acontecer, eu defenderei o seu direito e penalizarei o opressor. E enquanto eu for o monarca, eu nunca deixarei qualquer um tomar a possessão de propriedades móveis e terras dos outros pela força ou sem compensação. E enquanto eu for vivo, proibo o trabalho forçado não remunerado. Hoje, eu anuncio que todo mundo é livre para escolher uma religião. As pessoas são livres de viver em todas as regiões e assumir um trabalho, desde que nunca viole os direitos dos outros. Ninguém poderá ser penalizado pelas falhas de seus parentes. Eu proibo a escravidão e meus governadores e subordinados são obrigados a proibir o comércio de homens e mulheres como escravos dentro de seus próprios domínios. Tais tradições devem ser exterminadas em todo o mundo. Imploro a (Ahura) Mazda para me fazer ter sucesso no cumprimento de minhas obrigações para com as nações da Pérsia, Babilónia, e as dos quatro quadrantes.


Referências:
  - http://www.iranchamber.com/history/cyrus/cyrus_charter.php
  - http://www.farsinet.com/cyrus/
  - https://en.wikipedia.org/wiki/Cyrus_the_Great



sábado, 3 de dezembro de 2016

Daniel - O Capítulo Selêucida




Daniel, capítulo 11

O livro de Daniel parece uma compilação de falsas profecias que são “desenterradas” à posteriori, isto é, depois dos acontecimentos que supostamente são previstos. A personagem principal, Daniel, presente em grande parte do texto, é descrita como sendo um judeu originário de Jerusalém exilado na Babilónia desde a invasão de Nabucodonosor (597 a.C.) até ao tempo da invasão persa (539 a.C.).

O capítulo 11 de Daniel não foge ao padrão do resto do livro. O autor deste texto parece querer dar a ilusão de que se trata de uma profecia antiga do tempo do rei Dario I (reinou de 522 a 486 a.C., mas na versão Septuaginta do livro, a referência é o reinado de Ciro, antecessor de Dario). Uma clara fraude pois quase certamente terá sido escrito por volta do tempo do rei selêucida Antíoco IV Epifânio (175 a 164 a.C.) ou mais tarde – depois dos acontecimentos que descreve. O detalhe e precisão das profecias aumenta à medida que se aproxima do tempo do rei Epifânio.

No capítulo anterior (Daniel 10) o autor descreve como foi visitado por um ser sobrenatural, um anjo poderoso. Esse anjo propõe-se a falar-lhe sobre o futuro a partir do reinado de Ciro da Pérsia.

No resto do livro de Daniel, o autor demonstra não ter uma boa compreensão dos reis babilónicos e persas, mas definitivamente tem algum conhecimento sobre o império selêucida e sua descrição dos reis Antíoco II Theos até Antíoco IV Epifânio é bastante sólida.


Quatro reis Persas - Artaxerxes I cria intriga entre os gregos

Daniel 11:2
“Agora, pois, vou dar-lhe a conhecer a verdade: Outros três reis aparecerão na Pérsia, e depois virá um quarto rei, que será bem mais rico do que os anteriores. Depois de conquistar o poder com sua riqueza, instigará todos contra o reino da Grécia.”

Aqui o autor mostra um pobre conhecimento sobre a história da Pérsia, mais especificamente sobre a dinastia Aqueménida. Foram muito mais do que quatro reis. Quanto ao rei referido como “o quarto”, parece referir-se a Artaxerxes I.

Depois de uma derrota da Pérsia contra a Liga de Delos (coligação de cidades-estado gregas, incluindo Atenas), a acção militar contra a Grécia parou. Quando Artaxerxes I assumiu o poder, introduziu uma nova estratégia para enfraquecer os atenienses: financiar os inimigos de Atenas dentro da própria Grécia. Isso levou os atenienses a transferir o tesouro da Liga, que se encontrava na ilha de Delos, para a acrópole de Atenas, com a intenção de o salvaguardar. Esta prática levou as outras cidades gregas a desconfiarem de Atenas e a iniciar guerras entre gregos. Temístocles, um general grego que teve vitórias sobre os persas é ostracizado de Atenas e exila-se na Pérsia, acolhido amigavelmente por Artaxerxes.


Alexandre Magno conquista a Pérsia

Daniel 11:3-4
“Então surgirá um rei guerreiro, que governará com grande poder e fará o que quiser. Logo depois de estabelecido, o seu império se desfará e será repartido para os quatro ventos do céu. Não passará para os seus descendentes, e o império não será poderoso como antes, pois será desarraigado e entregue a outros.”

O texto salta cem anos de domínio persa após Artaxerxes, passando para a parte em que Alexandre o Grande esmaga os Persas.
Descreve bem Alexandre, dizendo que o seu império seria breve, sem herdeiros e que iria ser repartido, principalmente entre um reino do sul, o Egipto, e um reino do norte, o Império Selêucida.
O resto do capítulo é dedicado à relação entre os Ptolomeus do Egipto e os Selêucidas - que frequentemente disputavam a Síria e a Palestina - referidos como reis do sul e reis do norte respectivamente.

Com a morte de Alexandre, em 323 a.C., o império conquistado foi dividido entre os seus principais generais, entre os quais:
-          Antigono I Monoftálmico (zarolho) ficou a dirigir uma parte do império centrado na Macedónia;
-          Egipto (reino do sul, no texto de Daniel), a Palestina e a Cirenaica (parte da actual Líbia) ficaram nas mãos de Ptolomeu I Soter (ou Lagus, a cuja dinastia veio a pertencer a famosa Cleópatra VII);
-          os territórios da Ásia ficaram sob o domínio de Seleuco I Nicátor, fundador da dinastia selêucida (reino do norte, no texto de Daniel); posteriormente, por volta de 203 a.C., os selêucidas tomaram a Palestina ao reino Ptolomaico.


As seis Guerras Sírias

Uma série de guerras disputadas na Síria, resultantes da rivalidade entre Ptolomeus e Selêucidas, são chamadas de "guerras sírias". A primeira guerra síria foi disputada entre Ptolomeu II e Antíoco I, tendo encerrado com uma vitória do reino ptolemaico. O texto de Daniel 11 salta esta parte da história.


Antíoco II Theos casa-se com Berenice do Egipto

Daniel 11:5-6
“O rei do sul se tornará forte, mas um dos seus príncipes se tornará ainda mais forte que ele e governará o seu próprio reino com grande poder. Depois de alguns anos, eles se tornarão aliados. A filha do rei do sul fará um tratado com o rei do norte, mas ela não manterá o seu poder, nem ele conservará o dele. Naqueles dias ela será entregue à morte, com sua escolta real e com seu pai e com aquele que a apoiou.”

Aqui o autor alude a um casamento entre uma filha dos Ptolomeus e um rei Selêucida.
Antíoco II Theos (261 a 246 a.C.) entrou em guerra contra o Egipto, mas depois fez a paz com Ptolomeu II Philadelphus, terminando a segunda guerra síria. Para selar o tratado, Antíoco repudiou sua esposa Laódice I, exilando-a em Éfeso, e casou-se com a filha de Ptolomeu, Berenice Phernophoros, recebendo dela um enorme dote.

Como informação adicional, este rei Ptolomeu II foi o responsável pela criação da Septuaginta (ou versão LXX), a tradução grega do Antigo Testamento. Existia uma larga comunidade judaica fluente em grego em Alexandria e, por outro lado, a Judeia fazia parte do império ptolemaico.


Quando Ptolomeu II morre, Antíoco deixa Berenice e o seu filho em Antioquia e volta para a sua primeira mulher em Éfeso, mas Laódice envenena-o e mata-o, criando uma crise de sucessão e precipitando a terceira guerra síria.

Antíoco deixara dois fortes candidados para a sucessão ao trono selêucida: o filho de Laódice e o filho de Berenice. Por um lado, Laódice tinha o apoio da corte selêucida, mas Berenice teria o apoio do lado do Egipto.


Os Ptolomeus ganham território aos Selêucidas

Daniel 11:7-12
“Alguém da linhagem dela se levantará para tomar-lhe o lugar. Ele atacará as forças do rei do norte e invadirá a sua fortaleza; lutará contra elas e será vitorioso. Também tomará os deuses deles, as suas imagens de metal e os seus utensílios valiosos de prata e de ouro, e os levará para o Egito. Por alguns anos ele deixará o rei do norte em paz. Então o rei do norte invadirá as terras do rei do sul, mas terá que se retirar para a sua própria terra. Seus filhos se prepararão para a guerra e reunirão um grande exército, que avançará como uma inundação irresistível e levará os combates até a fortaleza do rei do sul. Em face disso, o rei do sul marchará furioso para combater o rei do norte, que o enfrentará com um enorme exército, mas, apesar disso, será derrotado.”

Laódice I, viúva de Antíoco II Theos, tendo tomado controlo de uma parte do reino, designa o seu filho, Seleuco II Callinicus, como o herdeiro do trono Selêucida. Ptolomeu III Euergetes, irmão de Berenice, invade o Império Selêucida para tentar instalar o seu sobrinho como rei. Ptolomeu obtém grandes vitórias mas, quando chega a Antioquia, Berenice e o filho tinham sido mortos por partidários de Laódice.

Ptolomeu III ocupa Antioquia e Babilónia, pelo que Seleuco Callinicus fica com um império muito mais pequeno que governa a partir de Éfeso.


Antíoco III Megas (o Grande)

É Antíoco III o Grande, filho de Callinicus, que vai recuperar e ampliar a grandeza do Império Selêucida.

Daniel 11:13-19
“Pois o rei do norte reunirá outro exército, maior que o primeiro; depois de alguns anos voltará a atacá-lo com um exército enorme e bem equipado.
Naquela época muitos se rebelarão contra o rei do sul. E os homens violentos do povo a que você pertence se revoltarão para cumprirem esta visão, mas não terão sucesso. Então o rei do norte virá, construirá rampas de cerco e conquistará uma cidade fortificada. As forças do sul serão incapazes de resistir; mesmo as suas melhores tropas não terão forças para resistir. O invasor fará o que bem entender; ninguém conseguirá detê-lo. Ele se instalará na Terra Magnífica e terá poder para destruí-la. Virá com o poder de todo o seu reino e fará uma aliança com o rei do sul. Ele lhe dará uma filha em casamento a fim de derrubar o reino, mas o seu plano não terá sucesso e em nada o ajudará. Então ele voltará a atenção para as regiões costeiras e se apossará de muitas delas, mas um comandante reagirá com arrogância à arrogância dele e lhe dará fim. Depois disso ele se dirigirá para as fortalezas de sua própria terra, mas tropeçará e cairá, para nunca mais aparecer.”

Cerca de 219 a.C., Antíoco o Grande iniciou a quarta guerra síria e retomou muitas das cidades costeiras que antes haviam sido perdidas para os Ptolomeus. No entanto, em 217, ao tentar invadir o próprio Egipto, Antíoco foi derrotado por Ptolomeu IV Philopator e esta guerra terminou.


Por volta de 209 a.C. Antíoco foi para a guerra, a norte, contra a Báctria e venceu depois de um notável cerco à cidade de Bactra. Ainda conquistou territórios da Índia, de onde obteve 150 elefantes.
Com a situação segura a norte, Antíoco virou-se novamente para sul. Antíoco ampliou grandemente o Império selêucida e iniciou uma nova guerra contra os Ptolomeus. Esta seria a quinta guerra síria e desta vez Antíoco varreu a maior parte do império ptolemaico, excepto o Egipto. Tomou a Fenícia e a Palestina.

Em 200 a.C., Antíoco o Grande preparou-se para invadir o Egipto novamente mas, desta vez, os romanos, aliados de Ptolomeu V Epiphanes, ameaçaram-no com guerra. Assim, a quinta guerra síria não incluiu o próprio Egipto.

Note-se que romanos tinham como prioridade, na sua aliança com os Ptolomeus, a defesa do Egipto porque era daqui que Roma recebia grande parte dos seus cereais. O Egipto era o celeiro de Roma e os romanos não queriam que essa ligação fundamental fosse cortada. Os cereais (hidratos de carbono) eram o petróleo (hidrocarbonetos) da antiguidade – era o que permitia a máquina de guerra funcionar – permitia, nomeadamente, movimentar soldados e cavalos.
Para selar a paz com o Egipto, Antíoco daria a sua filha Cleópatra da Síria para casamento com o rei egípcio Ptolomeu V.

Um pouco mais tarde, a expansão de Antíoco para a Grécia o traria em desacordo com Roma. A República Romana bateu os Selêucidas e forçou-os a pagar um pesado tributo como dívidas de guerra.
Antíoco morreu no ano seguinte, em 187, durante um assalto ao templo de Susa, numa tentativa de obter ouro para pagar tributo aos romanos.


Seleuco IV Philopator dedica-se à tributação

Daniel 11:20
“Seu sucessor enviará um cobrador de impostos para manter o esplendor real. Contudo, em poucos anos ele será destruído, sem necessidade de ira nem de combate.”

Seleuco IV Philopator foi o sucessor de Antíoco III O Grande. A sua actuação foi principalmente marcada pela tributação pesada para pagar a dívida aos romanos. Ele enviou o seu ministro Heliodoro para cobrar impostos em todo o império - este ficou recordado pelos judeus pelo seu assalto ao templo de Jerusalém.

A partir do versículo 21, este capítulo de Daniel mostra uma precisão histórica sem paralelo no resto do livro. Mostra que o autor era muito conhecedor da história de Antíoco Epifânio e menos conhecedor da história dos seus antecessores.


Antíoco IV Epiphanes, o desprezível

Daniel 11:21-30
“Ele será sucedido por um ser desprezível, a quem não tinha sido dada a honra da realeza. Este invadirá o reino quando o povo se sentir seguro, e se apoderará do reino por meio de intrigas. Então um exército avassalador será arrasado diante dele; tanto o exército como um príncipe da aliança serão destruídos. Depois de um acordo feito com ele, agirá traiçoeiramente, e com apenas um pequeno grupo chegará ao poder. Quando as províncias mais ricas se sentirem seguras, ele as invadirá e realizará o que nem seus pais nem seus antepassados conseguiram: distribuirá despojos, saques e riquezas entre seus seguidores. Ele tramará a tomada de fortalezas, mas só por algum tempo.
Com um grande exército juntará suas forças e sua coragem contra o rei do sul. O rei do sul guerreará mobilizando um exército grande e poderoso, mas não conseguirá resistir por causa dos golpes tramados contra ele. Mesmo os que estiverem sendo alimentados pelo rei tentarão destruí-lo; seu exército será arrasado, e muitos cairão em combate. Os dois reis, com seu coração inclinado para o mal, sentarão à mesma mesa e mentirão um para o outro, mas sem resultado, pois o fim só virá no tempo determinado. O rei do norte voltará para a sua terra com grande riqueza, mas o seu coração estará voltado contra a santa aliança. Ele empreenderá ação contra ela e depois voltará para a sua terra.
No tempo determinado ele invadirá de novo o sul, mas desta vez o resultado será diferente do anterior. Navios das regiões da costa ocidental [ou "navios de Kittim", referindo-se aos romanos] se oporão a ele, e ele perderá o ânimo. Então despejará sua fúria contra a santa aliança e, voltando, tratará com bondade aqueles que abandonarem a santa aliança.
Suas forças armadas se levantarão para profanar a fortaleza e o templo, acabarão com o sacrifício diário e colocarão no templo o sacrilégio terrível. Com lisonjas corromperá aqueles que tiverem violado a aliança, mas o povo que conhece o seu Deus resistirá com firmeza.
….”

Antíoco IV Epifânio foi o sucessor de Seleuco IV Philopator.
Em rigor, apesar de ser irmão de Seleuco e filho de Antíoco o Grande, Epifânio era um usurpador, uma vez que não figurava como sucessor no testamento do pai nem do irmão. Sua ascensão ao poder foi marcada por assassinatos e intrigas e um par de outros candidatos ao trono tiveram que ser mortos no processo.

Em 170 a.C. o rei do Egipto era Ptolomeu VI Philometor, de apenas quinze anos, filho de Cleópatra da Síria, sobrinho de Antíoco Epifânio. Em seu nome, os ministros egípcios exigiram aos selêucidas a devolução dos territórios da Síria e Palestina mas Epifânio lançou um ataque preventivo contra o Egipto, conquistando tudo menos Alexandria. Esta seria a sexta guerra síria e o Egipto foi fortemente abalado. Essencialmente, Epifânio tomou todo o Império mas, para não alarmar os romanos, deixou os Ptolomeus intactos em Alexandria e retirou-se. Permitiu que Ptolomeu VI continuasse a governar como um rei fantoche às suas ordens.

No caminho de regresso, Epifânio saqueou Jerusalém, instalou um sumo-sacerdote fantoche (chamado Menelau) e dedicou o templo de Jerusalém a Zeus.

Após a retirada de Epifânio, a cidade de Alexandria escolheu um novo rei, um irmão mais novo de Ptolomeu, também chamado Ptolomeu (VIII Euergetes). Os irmãos concordaram em governar o Egipto em conjunto em vez de lutarem numa guerra civil.

Em 168 a.C., tendo perdido o controlo sobre o Egipto, Epifânio decidiu atacar novamente mas, desta vez, os romanos vieram em defesa dos Ptolomeus, enviando uma frota naval ("navios de Kittim" no texto de Daniel). Assim, Antíoco recuou sem invadir o Egipto e, com o seu exército, depois de ter sido bloqueado pelos romanos, saqueou Jerusalém uma segunda vez.

O restante do capítulo 11 simplesmente explica algumas das façanhas de Epifânio, particularmente suas acções em Jerusalém.

No ponto de vista do autor deste texto, Epifânio é uma pessoa muito má pois saqueou Jerusalém duas vezes e causou todos os tipos de problemas para os judeus e para o judaísmo.

O capítulo 12 acaba com uma descrição do fim figurativo de Antíoco Epifânio, o fim da dominação selêucida e o fim de um período turbulento para Jerusalém e para a Palestina.

Epifânio acabou por ser derrotado na Revolta dos Macabeus a qual culminou na criação de um reino independente de judeus, o reino Asmoneu.


Referências:
  - List of Seleucid rulers
  - Ptolemaic dynasty
  - Tradução de Daniel da Septuaginta


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