Josefo menciona, numa passagem, um outro Jesus num episódio ocorrido no ano 62 (“quatro anos antes da guerra”). Esta personagem tem muitas semelhanças com o Jesus dos evangelhos mas, neste tempo, o Jesus dos evangelhos já deveria estar morto por quase 30 anos... se é que existiu. Vejamos a passagem:
A Guerra dos Judeus, VI, 5, 3
Mas um outro portento foi ainda mais assustador. Quatro anos antes da guerra, quando a cidade desfrutava de grande paz e prosperidade, um tal Jesus, filho de Ananias, um rude camponês, veio à festa na qual todos os Judeus costumam erguer tabernáculos a Deus. Entrando no Templo, pôs-se subitamente a gritar, «Uma voz do oriente, uma voz do ocidente, uma voz dos quatro ventos. Uma voz contra Jerusalém e o santuário, uma voz contra o noivo e a noiva, uma voz contra todo o povo». Depois, percorreu todas as ruelas, dia e noite, com este grito nos lábios. Alguns dos principais cidadãos, furiosos com estas palavras de mau agoiro, prenderam-no e castigaram-no duramente. Mas ele, sem uma única palavra em sua defesa ou para os ouvidos dos que lhe batiam, continuou com os seus gritos. Os magistrados, convictos de que o homem se encontrava sob um impulso sobrenatural – o que era verdade -, levaram-no ao governador romano. Apesar de flagelado até aos ossos, não implorou misericórdia nem derramou uma lágrima, gemendo entre cada chicotada, «Ai de Jerusalém!». Sempre que Albino, o governador, lhe perguntou quem era, donde vinha e porque dava aqueles gritos, ele nunca lhe respondeu, reiterando incessantemente as suas lamentações pela cidade, até que Albino o declarou louco e o deixou ir embora.
Durante todo o período que antecedeu a eclosão da guerra, nunca se aproximou de nenhum dos cidadãos nem lhes dirigiu a palavra, mas todos os dias, como uma prece que tivesse decorado, repetia o seu lamento: «Ai de Jerusalém!». Nunca amaldiçoava os que diariamente lhe batiam, nem abençoava os que lhe davam comida. A todos respondia apenas com o seu melancólico presságio, e os seus gritos eram mais altos durante os festivais.
E assim continuou as suas lamentações, durante sete anos e cinco meses, sem nunca exaurir a voz nem as forças, até que, durante o cerco, depois de ver comprovado o seu augúrio, morreu. Num dia em que percorria as muralhas aos gritos lancinantes de «Ai da cidade, ai do povo, ai do Templo», ao acrescentar «e ai de mim» foi atingido por uma pedra atirada por uma balista e morreu instantaneamente com estas palavras nos lábios.
Josefo escreveu este texto muito pouco tempo depois dos acontecimentos que relata. A Guerras dos Judeus, escrita cerca de 75 EC, é a história dos Judeus desde o tempo da revolta dos Macabeus, em 165 AEC, até à destruição de Jerusalém em 70 EC. Vamos relembrar as datas dos acontecimentos durante e após a Guerra dos Judeus:
Data
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Acontecimentos
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66 EC
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Início da Grande Revolta dos Judeus contra os romanos. Josefo é comandante militar na Galiléia. Vespasiano é comissionado por Nero para conter a revolta.
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67 EC
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Josefo rende-se a Vespasiano, na Galiléia, em Jotapata.
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69 EC
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O império romano ameaça desmoronar-se: quatro imperadores num ano.
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70 EC
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Tito derrota os judeus em Jerusalém. O Templo é destruido.
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73 EC
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A última bolsa de resistência judaica é derrotada em Masada.
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75 EC
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Josefo escreve Guerras dos Judeus.
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94 EC
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Josefo escreve Antiguidades Judaicas.
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Quem eram as personalidades políticas deste tempo e local (ver mais...):
Data
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Judeia (Jerusalém)
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Galileia
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60 EC
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Festus, prefeito (60 - 62 EC)
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Agrippa II, rei (52 - 93 EC)
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62
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Albinus, prefeito (62 - 64 EC)
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64
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Florus, prefeito (64 - 66 EC)
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66
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Grande Revolta (66 - 73 EC)
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68
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70
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Vamos agora comparar o Jesus dos evangelhos com o Jesus, filho de Ananias, desta passagem de Josefo:
Jesus dos
evangelhos
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Jesus, filho
de Ananias
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Enquadramento
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Prefeitura de Pilatus (26 a 36 EC)
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Prefeitura de Albinus (62 a 64 EC)
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Nome
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Jesus
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Jesus
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Veio a Jerusalém durante uma grande festividade
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Sim
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Sim
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Gritou no Templo
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Sim
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Profetizou a destruição de Jerusalém
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Sim
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Sim
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Foi detido
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Sim
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Foi açoitado pelos judeus
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Sim
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Sim
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Foi açoitado pelos romanos
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Sim
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Sim
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Foi julgado pela autoridade romana
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Sim
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Foi condenado pela autoridade romana
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Não
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Não
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Data da morte
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69 EC
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Causa da morte
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Pedra de balista
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