Segundo a sua própria descrição, Paulo era um fariseu zeloso
que começou por perseguir os judeus que não respeitavam os costumes (Filipenses
3:5-6). Entre esses judeus estavam os novos cristãos. Depois teve uma visão (ou alucinação) de Cristo que mudou o curso da sua vida.
O seu legado foram as cartas que escreveu para diversas
igrejas cristãs, algumas que ele próprio fundou. No entanto, estas cartas são
silenciosas em relação aos eventos que mais tarde foram registados nos
evangelhos. Isto sugere que estes eventos, no mínimo, não eram conhecidos por
Paulo. Por outro lado, caso as histórias dos evangelhos fossem reais, não poderiam
ser ignoradas por Paulo pois viveu na mesma época em que Jesus deveria ter
vivido e a sua conversão ao cristianismo é tradicionalmente datada como tendo
ocorrido pouco depois da crucificação de Jesus.
Paulo não faz nenhuma referência a pai de Jesus ser José, nem de sua mãe ser a Virgem Maria. Nunca identifica Jesus com nenhum
local, isto é, nem Belém, nem Nazaré, nem Cafarnaum. Paulo não deixa nenhuma
pista sobre o local e data da sua existência física. Não se refere a um
julgamento perante a autoridade romana, nem a Jerusalém como o local da
execução. Nada sobre João Baptista o baptizar nem sobre Judas o traír. Menciona
Pedro (Cefas) mas nunca num contexto em que Pedro tenha tido uma convivência quotidiana com Jesus.
Paulo nunca fala dos milagres de Jesus, nem dos ensinamentos
éticos de Jesus, excepto acerca do casamento, que encontramos em 1 Coríntios
7:10 e também em Marcos 10:12. Neste caso, assumindo que os evangelhos foram
escritos mais tarde, podemos dizer que “Marcos” inspirou-se também na doutrina
de Paulo.
A avaliar pelo enquadramento histórico dos evangelhos, a
vida pública de Jesus (tradicionalmente, de 29 a 33 EC) coincide com o tempo em
que Paulo estaria em idade adulta. E, de acordo com Actos e com as suas próprias cartas, Paulo andou por Jerusalém por
bastante tempo durante a sua idade adulta, na década de 30 EC, pois:
-
foi educado em Jerusalém e teve como professor o
famoso Gamaliel, o qual viveu naquela época (morreu em 63 EC, segundo algumas
fontes) e que, durante muito tempo, fez parte do Sinédrio (Actos 5:34-39;
22:3-5);
-
algum tempo depois da sua conversão a Cristo teve
um episódio que envolveu (indirectamente) o rei Aretas da Nabateia (2 Coríntios
11:32-33); ora este rei árabe morreu em 40 EC, o que significa que a conversão de
Paulo foi por volta da década de 30;
Segundo os evangelhos Jesus era famoso tanto na Galiléia
como em Jerusalém:
-
a fama de Jesus como executante de curas
milagrosas espalhou-se até à Síria, aparentemente logo no início da sua vida
pública (Mateus 4:24);
-
os evangelhos sinópticos descrevem apenas uma
única e curta permanência de Jesus em Jerusalém (poucos dias, até morrer) mas,
segundo João, foram várias as viagens
a Jerusalém;
-
a sua entrada triunfal em Jerusalém atraiu a
atenção de grandes multidões (Mateus 21:1-10);
-
Cleopas, um dos viajantes no caminho para Emaus insinua
(ao ressuscitado Jesus, não o reconhecendo) que todos em Jerusalém conheciam
Jesus (Lucas 24:18).
Por outro lado, de acordo com Actos, Paulo exercia a sua actividade em Jerusalém, antes da sua
conversão a Cristo, como autoridade legal sob o comando do Sinédrio (Actos
6:15-8:1; o Sinédrio condenou Estêvão e Paulo supervisionou o seu apedrejamento)
e do sumo-sacerdote (Actos 9:1-2). Então:
-
porque é que Paulo não conheceu Jesus quando este
causou os distúrbios no Templo, que despertaram a ira do sumo-sacerdote (Mateus
21:12-16)?
-
porque é que Paulo não soube nada sobre o
julgamento de Jesus perante o Sinédrio ou sobre os espectaculares fenómenos que
ocorreram depois da crucificação (Mateus 27:51-53; Lucas 23:44-45)?
-
porque é que Paulo, que escreveu cartas para
comunidades tão distantes de Jerusalém (Roma, Grécia, Macedónia e Galácia), não
descreveu estes episódios?
A resposta é que, quando Paulo escreveu as suas cartas
(entre 50 e 60 EC), Jesus Nazareno ainda não tinha sido inventado!
Na maior parte das referências nas suas cartas (considerando apenas as genuinas), Paulo refere o filho de Deus como "Cristo" apenas - poucas vezes como "Jesus" ou "Jesus Cristo". A designação "Jesus" poderá ter sido acrescentada posteriormente numa tentativa de harmonização com os evangelhos.
Paulo divulgou a mensagem sobre o Cristo como protagonista
de um evento mítico com consequências para os humanos. Esse evento teria
ocorrido fora do contexto de espaço e tempo físico dos humanos, mas teria um
impacto na vida das pessoas que cressem nisso. A crucificação e a ressurreição
de Cristo teria ocorrido fora do domínio do mundo físico dos humanos. Para
poderem conhecer e entender este fenómeno, essencial para a salvação pessoal, os
crentes eram encorajados a libertarem-se das amarras do mundo material. Depois
tinham apenas de esperar a vinda de Cristo à Terra para os levar para o céu.
