quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Século I - Reconstruindo a História




O cristianismo do Novo Testamento resultou da fusão do conceito de Paulo sobre o Cristo com o conceito propagado pelos evangelhos.

O conceito que Paulo pregou foi o de um Cristo mítico e intemporal, enquanto os evangelhos divulgam a figura de um pregador da Galiléia, do primeiro século da era actual, que se tornou o Cristo.

Face à dimensão da componente mítica, a verdade histórica é uma parte insignificante do Novo Testamento.

Antes de continuar, convido o leitor deste blog a ler os seguintes artigos:


Uma possível reconstrução histórica - Século I


A sequência de acontecimentos teria sido a seguinte:

1 a 20 EC

-          Tito Lívio escreve, na sua obra sobre a História de Roma ("Ab Urbe Con­dita"), sobre a deificação de Rómulo, o lendário primeiro rei de Roma; Rómulo teria subido aos céus e teria sido visto após a sua morte;

20 a 40 EC

-          seitas judaicas desenvolvem doutrinas sobre uma salvação divina que está prestes a acontecer; algumas apregoam sobre uma salvação nacional outras sobre uma salvação individual - entre estes existiam os Notzrim (Nazarenos);

-          João Baptista baptiza no rio Jordão e reune multidões – os seus seguidores dizem que ele é o Cristo;

-          João Baptista é preso e executado por ordens de Herodes Antipas (governante da Galiléia) por este recear o poder que aquele estava a ganhar;

-          os discípulos de João Baptista, inconformados, dizem que João Baptista ressuscitou;

-          inicia-se em Jerusalém, na Judeia, um movimento apostólico liderado por pessoas que afirmam ter tido uma visão do Filho de Deus; neste movimento contam-se Cefas (e/ou Pedro), Tiago e João;

-          Paulo adere tardiamente ao movimento apostólico, mas torna-se dissidente, ao optar por captar fiéis não-judeus; Paulo nunca conheceu nenhum Jesus Nazareno;

40 a 66 EC

-          Paulo divulga o Cristo como um ser mítico ligado à humanidade por um episódio intemporal de tortura, sofrimento e morte seguido de uma ressurreição ao fim de três dias – este Cristo prometeu-lhe, em visão, que viria brevemente salvar os crentes;

-          Paulo cria uma rede multinacional de igrejas para o seu movimento religioso; escreve cartas para manter a coesão do movimento;

-          Paulo introduz características do mitraísmo - a eucaristia - no seu movimento para captar mais fiéis;

-          Paulo morre;

66 a 100 EC

-          inicia-se a Grande Revolta dos Judeus, que é esmagada pelos romanos em 70 EC;

-          alguns cristãos de segunda geração, que pouco ou nada sabiam sobre os Nazarenos, escrevem a história de um tal Jesus Nazareno (Yeshu ha-Notzri), da Galiléia, que era o Cristo, fez-se baptizar por João Baptista para anunciar a sua chegada, que morreu e foi ressuscitado; esta história serviria de ilustração, como iniciação ao estudo do Cristo mítico;

-          judeus-cristãos acrescentam os episódios da Paixão, descrevendo que Jesus teria sofrido muito nas mãos de Pilatos, mas, logo a seguir, outros cristãos simpatizantes dos romanos, branqueiam a imagem de Pilatos e acrescentam um traidor judeu;

-          muitos escritos continuam a ser desenvolvidos em torno do conceito de Cristo, sem referência a Jesus Nazareno (alguns chegam, mais tarde, ao Novo Testamento, por exemplo: Hebreus e Apocalipse).


Os silenciosos

Muitos autores do século I permaneceram, como seria de esperar, silenciosos no que respeita à vida de Jesus Nazareno. Por exemplo:
-          Filon de Alexandria (Filo Judeu) era um filósofo que viveu entre 20 AEC e 50 EC (aproximadamente). Estava ao corrente dos principais acontecimentos de Jerusalém durante a sua vida, apesar de viver em Alexandria. Um dos seus livros menciona uma embaixada de judeus que foi pedir a Calígula para desistir da ideia de colocar a sua estátua no Templo de Jerusalém (40 EC). Filo nunca menciona Jesus Nazareno (embora elabore um texto muito sugestivo em torno de uma personagem chamada Jesus)..

-          Flávio Josefo (Yussef ben Matatias) nasceu em Jerusalém por volta de 37 EC e pertencia à aristocracia judaica. Aos 30 anos de idade participou na Grande Revolta Judaica, de 66 a 67 EC, como líder militar na Galileia. Foi capturado pelos romanos, mas tornou-se amigo de Vespasiano. Escreveu obras volumosas que incluiam a descrição de muitos judeus (alguns mais notáveis outros menos) do seu tempo e do passado. Sobre Jesus, só existem dois parágrafos claramente forjados em cópias posteriores do seu trabalho.

-          Justus de Tibérias foi um escritor judeu da Galileia contemporâneo de Josefo. As suas obras estão agora perdidas mas, no século IX, o patriarca de Constantinopla, Photius, escreveu sobre estas, recordando que Justo "nunca se refere a Jesus Cristo".



As pistas do evangelho

De acordo com Marcos, as pessoas que viam Jesus pensavam que ele era João Baptista, Elias ou qualquer outro profeta antigo:
Marcos 8:27-30 ... e no caminho interrogou os discípulos, dizendo:
 - Quem dizem os homens que eu sou?
Responderam-lhe eles:
 - Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros: Algum dos profetas.
Então lhes perguntou:
 - Mas vós, quem dizeis que eu sou?
Respondendo, Pedro lhe disse:
 - Tu és o Cristo.
E ordenou-lhes Jesus que a ninguém dissessem aquilo a respeito dele.


Nesta passagem do Novo Testamento, Jesus prefere que as pessoas continuem a pensar que ele é João Baptista ou outro profeta ressuscitado, a deixá-los saber que ele é uma outra pessoa. Pedro não ajuda muito, pois simplesmente atribui-lhe um título sem o identificar como uma pessoa diferente de João Baptista.

Ou seja, Jesus não assume uma identidade própria. Jesus é uma reedição de outra pessoa, de outra identidade.

4 comentários:

  1. Hilel, o rabi, também nasce antes de Jesus e morre quando este ainda é uma criança. O que me surpreende no artigo da Wikipedia é a tumba que me lembra a história do sepulcro de Cristo e o fato de ter criado uma escola - a Beit Hilel - seria aquela onde Jesus andou? Um dos mandamentos de Cristo é dele (ama o próximo como a ti mesmo)

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    1. Olá,
      Mais rigorosamente, o mandamento "ama o próximo como a ti mesmo" não é de Jesus nem de Hillel, é do Antigo Testamento:

      Levítico 19:18 Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.

      No entanto a escola de Hillel tinha este mandamento no seu ensino bem como a descriminalização da violação do Sabbath, ambas sublinhadas por Jesus nos evangelhos.

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  2. A biblioteca do Hospício que você está internado possui grande obras, pode dar descarga e descer junto com elas...

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  3. Hitler ja fez isso com os livros judaicos.

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