domingo, 3 de fevereiro de 2013

Actos dos Apóstolos - A Conversão de Paulo




Paulo, primeiramente conhecido pelo nome de Saulo, é descrito, nos capítulos 7 e 8 de Actos, como um perseguidor de judeus-cristãos que supervisionou o apedrejamento de Estêvão.

E, no capítulo 9 de Actos, o narrador relata que Paulo ia para Damasco em serviço, mandatado pelo sumo-sacerdote, quando teve uma visão de uma luz e uma voz que se identificou como Jesus. Essa visão fez com que se convertesse.

Mas a conversão de Paulo, através de uma visão de Jesus, é contada três vezes em Actos:
-          na primeira, é uma narrativa do autor com Paulo na terceira pessoa;
-          a segunda é, supostamente, um depoimento do próprio Paulo, na primeira pessoa, quando foi preso em Jerusalém, perante o comandante militar e da multidão que observava;
-          a terceira, também supostamente, é um outro depoimento que Paulo fez perante o rei Herodes Agripa (rei de 41 a 44 EC).


Actos 9:3-7
Actos 22:6-10
Actos 26:12-16
Mas, seguindo ele viagem e aproximando-se de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu; e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Ele perguntou: “Quem és tu, Senhor?” Respondeu o Senhor: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues; ...” Os homens que viajavam com ele quedaram-se emudecidos, ouvindo [gr. akouontes], na verdade, a voz, mas não vendo ninguém.
Aconteceu, porém, que, quando caminhava e ia chegando perto de Damasco, pelo meio-dia, de repente, do céu brilhou-me ao redor uma grande luz. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Eu respondi: “Quem és tu, Senhor?” Disse-me: “Eu sou Jesus, o nazareno, a quem tu persegues.” E os que estavam comigo viram, em verdade, a luz, mas não entenderam [ouviram - gr.  êkousan] a voz daquele que falava comigo. Então disse eu: Senhor que farei? ...
Indo com este encargo a Damasco, munido de poder e comissão dos principais sacerdotes,  ao meio-dia, ó rei vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, resplandecendo em torno de mim e dos que iam comigo. E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões. Disse eu: Quem és, Senhor? ...


Podemos observar coisas estranhas nestes três relatos (e é necessário lembrar que nenhum destes foi escrito pelo próprio Paulo):
-          no primeiro relato, o narrador diz que os companheiros de Paulo ouviram (gr. akouo) a voz;
-          no segundo relato, o primeiro depoimento, Paulo refere que os que estavam com ele não ouviram a voz mas muitas traduções do Novo Testamento trocam a expressão “não ouviram a voz” por “não entenderam a voz”, embora a palavra grega seja também uma forma do verbo akouo; a bem da honestidade algumas traduções colocam a expressão correcta - p. ex. a King James e a American Standard Version;
-          no terceiro relato, o segundo depoimento, Paulo refere Jesus a falar em hebraico mas a citar uma expressão que Eurípedes, dramaturgo grego da antiguidade, usou, mais de quatrocentos anos antes, na peça de teatro As Bacantes (linha 795): “dar pontapés contra aguilhões” (gr. “pros kentra laktizein” ou “laktizo pros kentron”, Actos 26:14);


Resumindo: o segundo relato é uma contradição do primeiro; e o terceiro relato é inspirado em dramaturgia grega.

Sobre a expressão "Recalcitrar contra os aguilhões" 
"Recalcitrar contra os aguilhões" = "dar pontapés em ferrões" = ser teimoso
Um aguilhão é uma vara com um ferrão ponteagudo na ponta que os pastores usam para disciplinar o gado. Por vezes, um boi poderia tornar-se teimoso e começar a dar coices no aguilhão do pastor, e o único resultado era magoar-se cada vez mais.





Num próximo artigo faremos mais paralelos entre Actos e As Bacantes.

3 comentários:

  1. Não quer dizer que o segundo relato é uma contradição do primeiro!
    E qual o problema de usar uma expressão de origem grega?

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    Respostas
    1. Isto está explicado no próximo artigo, sobre a ligação entre Actos dos Apóstolos e As Bacantes de Eurípedes:

      http://quem-escreveu-torto.blogspot.pt/2013/02/actos-dos-apostolos-as-bacantes-de.html

      Saudações

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  2. Mesmo assim, não quer dizer que o segundo relato é uma contradição do primeiro!
    E não é porque houve Histórias parecidas com a minha que a minha não é verdadeira!

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