domingo, 6 de janeiro de 2013

Paixão IV - Crucificação





Quem transportou a cruz

É muito conhecida a imagem de um transeunte que é obrigado a levar a cruz de Jesus. Mas quem é que levou a cruz?

Marcos 15:21
Mateus 27:32
Lucas 23:26
João 19:17
Foi Simão de Cirene (segundo Marcos este era pai de Alexandre e Rufo)
Foi o próprio Jesus


“João” não se lembrou que foi um infeliz de nome Simão de Cirene que ía a passar e foi obrigado a transportar a cruz (não podemos censurar, porque se foi mesmo João filho de Zebedeu que escreveu o Evangelho Segundo João, nessa altura já teria mais de cem anos e a sua memória já não brilhava...).

“Marcos” tinha referido que Simão de Cirene era pai de Alexandre e Rufo. Podemos supor que um destes, Rufo, era aquele a quem Paulo enviou cumprimentos especiais na sua Carta aos Romanos:
Romanos 16:13 Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha.

Imaginemos que os filhos de Simão de Cirene, Rufo e o seu irmão Alexandre, disseram a “Marcos” que o pai “transportou a cruz de Jesus”. No entanto, para Paulo e para os seus discípulos a cruz era um objecto simbólico a que todos os cristãos deveriam sujeitar-se:
Gálatas 2:20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. 
Gálatas 5:24 E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. 
Romanos 6:6 sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado.

Lembremo-nos, que Paulo não conheceu Jesus e escreveu as suas cartas antes de qualquer evangelho estar escrito. Portanto, para Paulo, a crucificação referia-se simbolicamente a uma mudança de personalidade e não à execução de um carpinteiro incómodo para os judeus.

Então podemos colocar as seguintes hipóteses:
-          “Marcos” não entendeu este simbolismo e escreveu a história de um obscuro carpinteiro da Galiléia que foi literalmente crucificado e cuja cruz foi transportada por um tal de Simão de Cirene;
-          “Marcos” entendia este simbolismo e, por isso, escreveu uma alegoria sobre o Cristo na qual o tal Simão de Cirene transporta-lhe simbolicamente a cruz;


Os outros dois condenados

Que crimes tinham cometido os dois homens que foram crucificados com Jesus?

Marcos 15:27
Mateus 27:38
Lucas 23:32
João 19:18
Ladrões
Malfeitores
- Não especifica -

Em Mateus e Marcos, os homens são qualificados como simples ladrões. Ora, isto não seria suficiente para serem condenados à crucificação. Haviam outras formas de execução e esta forma dolorosa (e dispendiosa) de pena de morte era reservada a revolucionários e escravos rebeldes, os maiores inimigos do Império.

Mas a maior inconsistência vem do relato do que é que estes homens fizeram enquanto estavam na cruz.

Marcos 15:32
Mateus 27:44
Lucas 23:39-43
João 19:18
O dois homens insultaram Jesus, mas Jesus não lhes deu resposta
Um dos homens insultou Jesus mas o outro censurou o primeiro reconhecendo que Jesus não merecia a mesma pena que eles. Jesus recompensa-o com uma ressurreição no paraíso.
- Não especifica -


O que é surpreendente no relato de Lucas é a facilidade com que um homem pode obter o paraíso apenas por um minuto de arrependimento (nesta doutrina não há uma avaliação contínua, o que interessa é o comportamento nos últimos momentos de vida...)!



Os espectadores
Quem observou a crucificação? Os observadores estavam perto ou longe da cruz?

Marcos 15:40-41
Mateus 27:55-56
Lucas 23:48-49
João 19:25-26
algumas mulheres olhando de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago o Menor e de José, e Salomé; e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém.
olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o ouvir; entre as quais se achavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.    
multidões e todos os conhecidos de Jesus,  olhando de longe, e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, estavam de longe vendo estas coisas.
estavam em pé, junto à cruz, sua mãe, e a irmã de sua mãe, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Jesus depois fala com a sua mãe e o “discípulo amado”.


Analisemos as diferenças:
-          em Marcos e Mateus, apenas menciona-se mulheres que observavam à distância, ou de longe;
-          em Lucas são mencionados todos os conhecidos de Jesus e as mulheres, também observando de longe;
-          em João, estão especificadas quatro mulheres que estavam de pé e junto à cruz, entre as quais a sua mãe; no versículo seguinte temos Jesus a falar com a sua mãe e o “discípulo amado”.


As tentativas de conciliação das diferentes versões podem ser resumidas no seguinte quadro:

Marcos 15:40-41
Mateus 27:55-56
Lucas 23:49
João 19:25-26
De longe, apenas mulheres
De longe, apenas mulheres
De longe, homens e mulheres
Junto à cruz
Maria Madalena
Maria Madalena
Mulheres que vieram da Galiléia com Jesus
Maria Madalena
Maria, mãe de Tiago o Menor e de José
Maria, mãe de Tiago e de José
Maria, mãe de Jesus (que também tinha filhos chamados Tiago e José), ou Maria, mulher de Clopas
Salomé
A mãe dos filhos de Zebedeu
A irmã de Maria, tia de Jesus
Outras mulheres que vieram da Galiléia com Jesus
Outras mulheres que vieram da Galiléia com Jesus
O “discípulo amado”


Não faz sentido que os soldados romanos deixassem pessoas aproximarem-se do condenado, estando este ainda vivo, tal como é narrado em João, pois poderiam tentar libertá-lo e este até poderia sobreviver aos ferimentos. Esta ideia pode ser apoiada pelo registo, também em João, em que os soldados, antes do cair da noite, foram quebrar as pernas dos condenados para garantir que estes morriam mesmo, asfixiados pelo peso do corpo suportado apenas pelos braços.


A inscrição na cruz

O que dizia a inscrição que foi colocada na cruz? Por ordem de quem é que essa inscrição foi lá colocada?

Marcos 15:26
Mateus 27:37
Lucas 23:38
João 19:19-20
O REI DOS JUDEUS
ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS
ESTE É O REI DOS JUDEUS (em grego, latim e hebraico, segundo algumas versões do Novo Testamento)
JESUS O NAZARENO, O REI DOS JUDEUS, em grego, latim e hebraico, segundo  ordens de Pilatos


Seria de esperar um maior rigor na transcrição de uma pequena expressão. Note-se que, em algumas versões de Lucas existe uma interpolação (“...em grego, latim e hebraico”), possivelmente feita com o intuito de se harmonizar com o Evangelho de João. Esta inserção ficou reflectida em apenas alguns manuscritos antigos e, portanto, não está reflectida em todas as traduções actuais, mas pode ler-se, por exemplo, na tradução King James.

Só em João é referido que a inscrição foi colocada por ordem expressa de Pilatos. Nos outros evangelhos isto não é referido.

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