quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Marcos - Censura VI - Um bastão em viagem? O milagre dos pães.


Os autores de Mateus e Lucas, em algumas passagens, não se limitaram a copiar as frases encontradas em Marcos. Algumas alterações ao texto revelam a intenção de simplesmente o embelezar, mas outras revelam a intenção de modificar a doutrina apresentada em Marcos.





Com ou sem bastão?

O exemplo que veremos a seguir, embora relacionado com um pormenor sem importância, mostra como as contradições ou inconsistências aparecem até mesmo em textos com pouca importância teológica, ou de cuja importância não nos apercebamos:

Marcos
Mateus
Lucas
Marcos 6:8-9 ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, senão apenas um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto; mas que fossem calçados de sandálias, e que não vestissem duas túnicas.
Mateus 10:9-10 Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre, em vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de alparcas, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento.
Lucas 9:3 dizendo-lhes: Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas.


Em Marcos, Jesus diz para os apóstolos nada levarem para o caminho, excepto um bastão. Em Mateus e Lucas, o bastão está incluido nos objectos que não podem levar.

Aqui podemos formular duas hipóteses:
-          em Marcos a frase era inicialmente semelhante à que existe nos outros evangelhos, mas houve um erro nas cópias de Marcos que chegaram até aos nossos dias;
-          ou, então, “Mateus” e “Lucas”, não perceberam o porquê de proibir tantos objectos mas permitir um bastão, por isso resolveram corrigir aquilo que pensaram ser um erro de Marcos.


Os apóstolos e os milagres dos pães

Segundo Marcos e Mateus, o “milagre da multiplicação dos pães” ocorreu duas vezes, enquanto em Lucas só há uma ocorrência:
-          no primeiro milagre (Marcos 6:35-44; Mateus 14:15-21; Lucas 9:12-17) são alimentados cinco mil homens (ou famílias, pois eram contadas pelo número de homens adultos) a partir de cinco pães e dois peixes; no fim sobraram doze cestos cheios;
-          no segundo milagre (Marcos 8:1-9; Mateus 15:32-38) são alimentados quatro mil homens a partir de sete pães e “alguns peixinhos”; no fim sobraram sete cabazes cheios.

Imediatamente após o primeiro “milagre dos pães”, o relato de Marcos prossegue com o episódio de Jesus a andar sobre água, e mostra que os apóstolos ainda estavam aturdidos sem perceber o que se tinha passado no “milagre dos pães”, quanto mais para perceber que raio fazia Jesus a caminhar sobre as águas.

Marcos
Mateus
Marcos 6:51-52 E subiu para junto deles no barco, e o vento cessou; e ficaram, no seu íntimo, grandemente pasmados; pois não tinham compreendido o milagre dos pães, antes o seu coração estava endurecido.
Mateus 14:32-33 E logo que subiram para o barco, o vento cessou. Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

Para “Mateus”, os apóstolos tinham de ser crentes de primeira linha e não cépticos apáticos como o que se vê descrito em várias passagens de Marcos, por isso mostra que os apóstolos renderam-se e glorificaram Jesus com palavras de louvor.

“Lucas” omite a passagem em que Jesus caminha sobre a água, mas esta omissão faz parte de um grande bloco de passagens chamado de “grande omissão de Lucas”, por isso não se pode concluir se esta omissão é uma censura directa a esta passagem ou se foi por outro motivo. Iremos detalhar este assunto da “grande omissão de Lucas” mais à frente.

Mas, no segundo milagre dos pães, a descrição de Marcos e Mateus leva a crer que os apóstolos eram mesmo homens de pouca fé, para além de terem uma memória muito curta, porque perguntaram a Jesus onde ir buscar comida para a multidão.

Marcos
Mateus
Marcos 8:1-9 ... chamou Jesus os discípulos e disse-lhes: Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que eles estão comigo, e não têm o que comer. Se eu os mandar em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho; e alguns deles vieram de longe. E seus discípulos lhe responderam: Donde poderá alguém satisfazê-los de pão aqui no deserto? ...
Mateus 15:32-38 Jesus chamou os seus discípulos, e disse: Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que eles estão comigo, e não têm o que comer; e não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho. Disseram-lhe os discípulos: Donde nos viriam num deserto tantos pães, para fartar tamanha multidão? ...

E após este episódio, em Marcos e Mateus, os apóstolos discutiam entre si o facto de se terem esquecido de trazer pão. Então Jesus emite uma severa repreensão aos apóstolos:

Marcos
Mateus
Marcos 8:14-21 ... Pelo que eles arrazoavam entre si porque não tinham pão. E Jesus, percebendo isso, disse-lhes: Por que arrazoais por não terdes pão? não compreendeis ainda, nem entendeis? tendes o vosso coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? e tendo ouvidos, não ouvis? e não vos lembrais? ...   
Mateus 16:5-12...  Pelo que eles arrazoavam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. E Jesus, percebendo isso, disse: Por que arrazoais entre vós por não terdes pão, homens de pouca fé? ...


Em Mateus, a repreensão de Jesus dirigida aos apóstolos não parece tão rude como aquela descrita em Marcos.

Ainda sobre os dois “milagres dos pães” vemos que, segundo Marcos, apesar serem participados por multidões de cinco mil e quatro mil homens (ou famílias), respectivamente, não há nenhuma indicação de estes participantes terem ficado maravilhados com o poder de Jesus. O autor indica apenas que estes ficaram satisfeitos com a refeição que puderam disfrutar. Os participantes não puderam observar nenhum milagre a acontecer, pois Jesus pediu que a multidão se separasse em pequenos grupos sentados na relva (Marcos 6:39-40) para depois distribuir os alimentos. “Marcos” quis transmitir que apenas os apóstolos é que tomaram conhecimento do carácter miraculoso do evento e que, na melhor das hipóteses, todos os outros participantes teriam retido apenas a impressão de que Jesus estaria apoiado numa boa logística. Mesmo rodeado de multidões Jesus era muito discreto.

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